domingo, 29 de janeiro de 2017

3. Vitório


Sexta-feira

           Comemoro internamente por ter lugares disponíveis para sentar, ao entrar no ônibus, eu estava cansado, o dia tinha sido cheio, complicado, e por mais que o alivio de saber que o fim de semana está logo ali invada minha mente, sou obrigado a voltar para realidade, não existe fim de semana para mim.
                                Durante a semana trabalho num restaurante, começo as 9 da amanhã e fico até as 16 horas, o restaurante é grande e movimentado, muitas vezes, nós, funcionários temos que lidar com pessoas mal educadas, mas jamais podemos reclamar, o cliente é quem tem a razão. Sábado e domingo, no horário em que pessoas da minha idade estão se arrumando parar irem curtir, irem para balada, sair com os amigos, irem a uma festa, eu estou me arrumando para voltar para o restaurante que abre para o jantar.  Sempre vou aos mesmos lugares, sempre sigo as mesmas rotinas, poucos feriados são realmente feriados para mim, e as férias de uma semana e dois dias duas vezes no ano não são capazes de recarregar minha energia nem de me consolar, esta não é a vida em que eu queria viver. Biologia era minha paixão, biologia era meu curso na faculdade, eu deveria estar a meio caminho de me tornar um biólogo, mas tudo tinha sido tirado de mim de forma muito repentina e trágica.
Primeiro veio a doença de minha mãe, depois as dividas e para fechar a morte de meu pai, o meu mundo, e a do meu irmão, tinha virado de cabeça para baixo.
           O ônibus para e eu sei que Gregório irá subir nele agora, mesmo que seja para ficar sentado por apenas dois quarteirões, já que nossa casa não é tão longe daqui. Mas se eu estou cansado, meu irmão está pior, ele trabalha como estocador no supermercado, carregar peso é algo comum em seu trabalho e o fato de que ele começa as 7 e só sai agora, as 16, tendo apenas uma parada pequena para almoço, posso dizer que ele está sempre um caco.
           Vejo que a mulher sentada um pouco a frente olha para trás, assustada, eu sei o que ela está pensando: Mas este mesmo garoto já não entrou no ônibus?
           Gregório e eu somos irmãos gêmeos, ambos com 20 anos, temos os mesmos 1,72 metros, nós dois somos loiros, os mesmos olhos castanhos, o mesmo rosto, tentamos nos diferenciar como podemos. Desde que crescemos sempre cortamos o cabelo de maneira diferente, enquanto o meu é grande, deixei crescer até quase o ombro, o de meu irmão é mais curto, não muito abaixo de sua orelha.  E sempre nos vestimos de maneira diferente, apesar de termos gosto muito parecido na questão de roupa.
           Gregório senta do meu lado e bufa cansado.
           _ Eu não acredito que terei que voltar aqui amanhã. – ele se afunda na cadeira, ficando mais a vontade, porém com uma postura péssima.
           _ Pelo menos você terá o domingo livre. – digo e ele olha para mim.   
           _ Semana que vem você entra de férias, eu não.
           _ De uma semana, quando você entrar, suas férias durará um mês.
           _ Você quer competir quem está mais ferrado? – ele se irrita.
           _ Não. – eu digo. _ Você está mais mesmo. – assumo e ele bufa novamente.
           _ Isso um dia vai acabar? – ele pergunta e eu fico sem resposta.
           _ Vamos. – digo após um tempo. _ Já é o nosso ponto.
           Gregório levanta a contra gosto e descemos do ônibus. Temos que descer a rua para chegar onde moramos, não é uma caminhada longa, não é nada cansativo, porém sempre hesitamos antes de começar.
           Nossa mãe havia perdido muito em pouco tempo. Sua doença levou sua vitalidade, emprego e cabelos, o destino levou seu marido de toda a vida e sua felicidade, tudo o que ela tinha agora era a nós, seus dois filhos cansados. Chegar em casa, para nós, não é o fim do trabalho, mas sim o começo de um trabalho diferente, tentar anima-la não é uma missão fácil, mas é tudo o que queremos fazer, queremos ter a nossa mãe feliz novamente, a mãe que sempre estava disposta ao acordar, que sorria do nada, simplesmente porque queria, queremos a mãe que iria brigar com a gente quando entrasse em nosso quarto que está uma verdadeira zona, queremos a mãe que sempre saia na rua para comprar pão, ou algo assim, as vezes nem precisava ir para algum lugar especifico, ela só queria sair, ver a luz do sol tocar sua pele clara, sentir o vento fresco que vem do mar, que não fica muito longe de onde vivemos, ela gostava de dar ‘bom dia’ a todos que passavam, ela conhece a  maioria das pessoas que moram perto, todos torcem por ela, todos a querem bem, mas nada disso parece ser suficiente mais.
           _ Em algum momento temos que chegar lá. – Gregório diz.
           _ Sim. – concordo, mas não me movo. _ Isso um dia vai acabar. – eu digo.
           _ Quando? – Gregório pergunta.
           _ Eu não sei. – respondo. _ Mas isso um dia terá que acabar. – falo e dou o primeiro passo para frente. Gregório me acompanha.

           _ Olá garotos. – diz Emanuel, assim que atravessamos a rua e chegamos a calçada do outro lado. Ele tem uma floricultura na rua de nossa casa, velho, porém muito simpático, sempre que pode tenta nos ajudar. _ leve esta rosa a mãe de vocês. – ele diz, pegando uma rosa branca e entregando-me. _ Ela gostava muito dessas. – diz sorrindo.
           _ Isso é muito gentil da sua parte, Emanuel. – digo.
           _ É um presente, o aniversario dela está chegando, não está? – pergunta. _ Seu pai sempre comprava rosas nessa época do ano.
           _ Todos os dias, durante toda a semana. – Gregório relembra.
           _ Sim. – Emanuel confirma. _ Sempre rosas brancas, e no ultimo dia ele comprava um buquê, e ia à padaria e comprava uma caixa grande de bombons. – ele lembra. _ Eu sei que não será igual, mas leve a rosa, mantenham a tradição. – ele diz. _ Isso pode alegra-la um pouco. – conclui.
           _ Não temos dinheiro para lhe pagar agora. – Gregório diz.
           _ Não, não, não. – Emanuel fala com certa urgência. _ Nada de dinheiro, é meu presente. Seus pais já me ajudaram quando precisei também, não tenho condições de fazer muito, mas posso dar essa rosa, e sei que isso significará muito.
           _ Muito obrigada, Emanuel. – vejo que os olhos de Gregório mareiam. Logo ele o irmão durão.
           _ Ei, durante a semana, sempre parem aqui, eu irei fornecer mais, sempre as mais bonitas. – ele diz sorrindo.
           Foi difícil de sair da floricultura de Emanuel. A lembrança de nosso pai ainda é dolorosa.
           Descemos mais a rua e recebemos vários “Bom Dia” e olhares de compaixão.
           Destranco a porta para entrar em casa. Gregório entra e já corre para dentro. Ele tem essa mania, sempre enrolamos para chegar, mas quando chegamos corremos para saber se está tudo bem.
           Tranco o portão, mas não corro para dentro, fico olhando para a rosa em minha mão. Emanuel provavelmente já estava esperando por nós, pois já havia retirado os espinhos, trabalho que ele só faz, quando se confirma a venda.
           Não sei se Gregório estava como eu, mas eu me sentia tão cansado que por um momento havia esquecido a data que se aproximava. Não temos o costume de fazer grandes festas na minha família, mas temos pequenas tradições ou manias que sempre repetíamos na semana e no dia do aniversário de algum de nós.
           Meu pai sempre foi o que mantinha tudo organizado e ele realmente seguia as tradições, todo aniversario de minha mãe, ele trazia as rosas brancas, uma por dia durante toda a semana e no dia do aniversario dela, um buquê e a caixa de bombom. No fim do dia íamos a um restaurante, o que minha mãe quisesse, e lá comíamos feito reis. No meu aniversario e no de Gregório, mamãe passava a semana fazendo nossos pratos prediletos, mesmo que isso significasse fazer duas coisas totalmente diferentes, e nosso pai, sempre dava um jeito de sair mais cedo do trabalho e nos levava para jogar futebol, ou basquete e soltar pipa na rua de trás da nossa casa, era legal, pois ele sempre trabalhava muito e essa era a semana que mais o víamos em casa, no dia do nosso aniversario sempre acordávamos com um bolo para cada um, meu pai tirava folga de um dia e nossa mãe, quando ainda trabalhava, ia trabalhar mais tarde. Enquanto nossa mãe trabalhava, íamos com nosso pai para a praia, entravamos no mar, jogávamos futebol na areia, simplesmente conversávamos, no fim da noite podíamos sair para onde quiséssemos, eu e meu irmão gostávamos de ir para o boliche, então quase sempre passávamos a noite de nosso aniversario lá, às vezes levávamos alguns amigos conosco, mas na maioria das vezes era algo entre a família, sem ninguém de fora. No aniversario de nosso pai era um pouco mais complicado, ele não gostava de muitas coisas, então durante a semana mamãe sempre inventava algo, algum tipo de surpresa, eles saiam sozinhos ou junto com nós, íamos a lugares diferentes, comíamos coisas diferentes, visitávamos cidades vizinhas, e no dia do aniversário dele sempre era um bolo e uma noite a sós com nossa mãe, eu e meu irmão sempre dormíamos fora de casa, quando menores íamos para casa da nossa avó ou tia e quando crescemos íamos para casa de amigos ou da namorada que estivéssemos no momento. Tudo para não nos traumatizarmos. Sei o que nossos pais fizeram para nos ter, mas não preciso presenciar isso no quarto ao lado.
           Nesse ano não teríamos nada disso.
           Descido entrar em casa. Ficar ali relembrando me fez começar a chorar.
           Limpo as lágrimas ao passar pela porta, e encontro já na sala a TV ligada. Isso é normal, sempre que chegávamos nossa mãe está vendo algo na televisão, porém mesmo com a TV ligada, não a vejo sentada no sofá.
           _ Mãe? – chamo-a. Olho para a mesa e vejo que não há lanche pronto e isso é um sinal ruim, nossa mãe, quando acorda bem, sempre nos faz lanche para quando chegarmos cansados, comermos, porém no dia em que ela está muito triste, triste demais para se quer conseguir levantar da cama, ela não faz o lanche. _ Gregório? – o chamo e subo as escadas para o segundo andar, onde ficam os quartos.
           Assim que chego, levo um susto.
           Vejo Gregório desmaiado no chão.
           _ Gregório! – grito e vou até a ele. Balanço-o para ver se ele acorda, tento apertar seu pulso para ver se ele está vivo, no nervosismo não consigo sentir nada, mas ao tocar em seu rosto sinto o ar saindo pelas suas narinas. Ele está vivo.
           Ainda assim minha cabeça roda, eu fico imaginando o que pode ter acontecido. Ele teria passado mal? Talvez algo no trabalho, ele carrega muito peso de vez em quando, ele podia ter deslocado algo? Mas deslocar algo pode causar desmaio?
           Tento lembra-me se ele parecia passar mal enquanto vínhamos para cá, mas não consigo detectar o momento em que ele deixa transparecer que algo de errado estava acontecendo.
           _ Gregório. – grito novamente. Quero descer, para pegar o telefone e ligar para a emergência, mas antes corro até o quarto de nossa mãe, talvez ela soubesse como nos ajudar e quem sabe, mesmo estando em seus dias ruins, ela levantaria da cama e ajudaria.
           Vou até lá e abro a porta, mas não a vejo de imediato.
           _ Mãe? – a chamo.
           Fico assustado, mas penso: será que ela saiu de casa? Será que ela estava se sentindo melhor e saiu para caminhar? – uma leve onde de animação me inunda, só de pensar que talvez minha mãe estivesse melhor.
           Minha alegria não dura muito, pois logo escuto sua voz.
           _ Vitório? – ela chama meu nome, bem baixinho. Entro no quarto e vejo-a sentada no canto esquerdo, se espremendo entre a cômoda e a parede.
           _ Mãe? – fico sem entender nada. _ o que está acontecendo? – pergunto. Ela chora e isso corta meu coração.
           Minha mãe estica suas mãos em minha direção, vou até a ela, agacho-me na sua frente e ela toca meu rosto.
           _ Filho. – ela sorri, mas ainda há lágrimas jorrando de seus olhos.
           Vejo que ela olha para minha mão, nem mesmo tinha notado, mas eu ainda seguro a rosa que Emanuel deu, porém o talo agora está quebrado na metade.
           Eu entrego a rosa, e ela tira a mão esquerda de meu rosto para pega-la.
           _ Gregório está desmaiado no corredor, temos que ajuda-lo. – eu digo com urgência. Minha mãe me olha e sorri fraco.
           _ Eu sei. – ela diz triste. _ Chegou o dia. – ela fala.
           _ Do que você está falando mãe? O que está acontecendo? – pergunto.
           _ Não adiantou fugir. – ela diz. _ Eles nos encontraram. – ela fala. Penso que pode ser alucinação, dizem que a mistura de remédios pode causar isso, ela nunca teve, mas talvez hoje ela tivesse exagerado nas doses e por isso falava nada com nada.
           _ Mãe, eu vou chamar a emergência. – digo.
           _ Não. – ela agarra meu braço, me mantendo no chão, junto a ela. _ Não há o que fazer. – ela diz. _ Eles não irão desistir.
           _ Mãe, por favor, você está alucinando...
           _ Não. – ela me interrompe. _ Eu não também não entendi quando seu pai falou. – ela diz. _ Mas quando vieram nos visitar, falando do plano deles...
           _ O que isso tem a ver com o papai? – pergunto um pouco irritado, eu estava perdendo tempo, eu precisava ajudar meu irmão.
           _ Tudo. Isso... Isso passa. – ela diz. _ É genético, está no seu sangue, é quem você é.
           _ O quê que ‘passa’?
           _ O que tem dentro de você. – ela toca a mão que segura em meu peitoral, onde fica o coração. _ O que você guarda dentro de você passa de pai para filho. – ela diz.
           _ Eu estou doente? – pergunto. _ Por isso Gregório está desmaiado? – insisto. _ Há cura? – pergunto desesperado.  
           _ É algo lindo, mas tome cuidado, use para o bem. – ela diz.
           _ Mãe...
           _ Não, filho, você vai entender. – ela sorri, mas depois começa a chorar compulsivamente. _ Eu só queria que vocês pudessem ficar comigo. – ela diz.
           _ Mãe, eu não vou te abandonar. – eu digo e tento abraça-la, porém ela me afasta e olha para trás. Ela parece ver algo atrás de mim. Quero ver o que é, mas ela volta a segurar meu rosto e me obriga a ficar olhando para ela. _ Feche os olhos.
           _ Mãe...
            _ Feche os olhos Vitório! – ela ordena. Eu não quero, não entendo o porquê de ela estar agindo desta maneira estranha. _ por favor. – ela pede com a voz fraca em meio ao choro.
           Suspiro frustrado por não entendê-la, mas fecho os olhos.
           E não os abro mais.

Continua

Mais um capítulo postado, espero que tenham gostado, comentem o que acharam, quero muito saber a opinião de vocês.
Bjsss


Anônimo: Creio que agora já dá para começar a fazer algumas teorias, mas entendo que ainda não dê pra entender toda a história, mas a partir que mais capítulos forem postados ficará mais fácil fazer teorias. Muito obrigada por comentar. Bjssss

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

2. Theodor



Quinta-feira


_ Aquele cara deveria ser você. – assusto-me com a voz de Philip.
_ Não sei do que você está falando. – minto e coloco minha guitarra na case com bastante cuidado, a guitarra é nova, a comprei após um mês inteiro me privando de várias coisas, apenas para juntar dinheiro para compra-la, hoje havia sido a primeira vez que eu a usara no palco e posso dizer que todo sacrifício tinha valido a pena.
_ Aquele cara aos amassos com Sofia, ali no bar. – ele se especifica, deixando-me sem ter onde fugir. Fecho a case e posso dizer que minha parte está terminada.
_ Mas não é. – digo duro. _ E isso não deveria ser da sua conta. – concluo. _ Quer ajuda para guardar sua bateria? – pergunto, querendo mudar de assunto.
              _ Eu realmente não entendo vocês dois. Vocês claramente amam um ao outro, menos vocês mesmos. – ele ignora minha tentativa.
              _ Eu sei que amo Sofia. – deixo escapar baixo.
             _ Se soubesse mesmo não estaria aí, fazendo corpo mole.
              _ Não estou fazendo corpo mole, ela não gosta de mim, simples assim.
_ Não existe isso de “ela não gosta de mim”, todos sabem que você a ama e todos sabem também que ela te ama, o que ela tem é medo de se envolver e você é um besta que não faz nada para concertar isso.
_ E o que você quer que eu faça? Eu que a obrigue a ficar comigo? – irrito-me.
_ Não! Eu quero que você seja o cara que tira todo esse medo dela, quero que a faça superar o passado, é só isso. – ele diz. _ Todo mundo torce por vocês.
Não quero admitir, mas as palavras de Philip me fazem pensar. Eu conheço Sofia faz três anos, não foi amor à primeira vista, mas não demorou mais de um mês para que ela se tornasse meu primeiro pensamento ao acordar.
Nesses três anos criamos uma forte amizade. Eu sei que ela confia em mim mais do que em qualquer um, ela se abre comigo mais do que se abre com qualquer outra pessoa. Eu gosto de crer que temos uma intimidade e uma conexão que só pode ser explicada pelo fato de que nos amamos, mas Sofia gosta de se fazer durona, gosta de agir como a insensível, que não se importa com nada. Se tornar amigo dela, muitas vezes pode ser algo complicado, pois ela pode ser bem bruta quando quer, mas todos sabem que na hora da necessidade ela é a pessoa mais doce e prestativa que existe, e eu sei que Sofia, na realidade, é uma pessoa doce, eu sei que a Sofia bruta é uma mascara, um escudo, uma proteção, eu sei, porque eu a conheço e porque eu a amo, amo muito.
Ano passado, no impulso, eu disse a ela que eu a amava, parecia o certo a se fazer, eu já estava guardando isso comigo por muito tempo, mas a resposta que tive não foi a que eu esperava receber. Ela não quis saber de mim, cheguei a pensar que nunca mais a veria, mas ela não me afastou completamente, apenas deixou claro que o que temos é amizade e que sempre seremos apenas amigos e companheiros de banda, nada mais que isso.
Escuto uma voz feminina gritando.
Não preciso nem olhar para saber de quem se trata.
O bar não está muito cheio hoje, quinta-feira não é dia de muito movimento, então mesmo que ela não esteja gritando muito alto, todos podem escutar sua interjeição.
Eu e Philip pulamos do palco e vamos até o bar.
Empurro o homem de perto de Sofia.
Ele é maior que eu, mas não me importo.
Sou forte também, posso não ser musculoso, mas consigo me garantir numa briga.
_ Theodor, pode deixar, está tudo bem agora. – Sofia diz, atrás de mim.
_ Escutou ela, guitarrista? – diz com desdém. _ Está tudo bem agora.
Sofia cheira a álcool. Ela bebeu durante o show inteiro, o que a deixou bem alterada, e isso ajudou durante sua performance, os poucos que vieram ao bar se animaram durante nossa apresentação, e Sofia, como vocalista, é grande responsável sobre isso, mas agora, está bem claro que a bebida não estava mais a fazendo bem.
Não é a primeira vez que Sofia tem problemas com homens no bar. Ela é bonita.
Um pouco baixinha e com sardas no rosto, isso a deixa com uma aparência inocente, mas Sofia tem um corpo muito bonito, o famoso corpo violão, suas curvas são perfeitas, e o fato de que ela tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, faz com que o ar de inocência suma e lhe dê um ar sensual. Geralmente ela consegue se esquivar de homens mal intencionados, mas algumas vezes ela precisa da nossa interversão. Porém esta e a primeira vez que ela não aceita nossa ajuda logo de cara.
Ignoro ao homem e me volto para Sofia.
_ Sofia, vamos embora. – digo, já pegando seu braço e puxando-a.
_ Ei cara. – o homem me empurra. Solto a Sofia para que eu não caia e a leve junto. _ Ela pediu para que você saísse, não que você a levasse. – ele diz. Phillip fica ao nosso lado, mas não intervém, ele é menor que eu e tem completa aversão a brigas, pois ele sempre perde.
_ Eu não sei quem você é, e sinceramente, pouco me importo, eu só sei que é melhor você se afastar, eu não estou brincando. – digo sério, mas o homem ri.
_ Quem você pensa que é cara? – ele pergunta marrento.
_ Alguém que sabe reconhecer quando uma mulher está sóbria ou não. – digo. _ Simplesmente um homem de verdade.
De canto de olho percebo que Phillip tira Sofia do local, mas creio que enfureci tanto ao homem a minha frente que ele nem mesmo se importa.
O homem vem para cima de mim com um soco, mas desvio, dando um pulo para trás, sei que o seu golpe havia sido forte, pois ao não me alcançar ele quase se desequilibra, pois é puxado para frente pela sua própria força.
Sei que sou forte e que posso lutar contra ele, mano a mano, mas sinto que posso perder muito mais no final, desde um dente até mesmo o emprego de músico aqui no bar.
Tocar é mais um passatempo (e uma maneira de ficar mais tempo perto de Sofia), do que necessidade para mim. Durante a semana trabalho como Programador de Software para uma empresa, se me despedissem daqui por brigar com um cliente, eu não sofreria muito, mas não posso dizer o mesmo dos meus colegas de banda, Phillip também tem um segundo emprego, como repositor de estoques num supermercado, mas Sofia e Lara (a baixista), vivem apenas da música, Lara também faz bico de professora particular de vez em quando, mas para Sofia é apenas música, e mais nada. Prejudica-las não é minha intensão.
Assim que o homem retoma seu equilíbrio ele dispara mais um soco contra mim, o soco é dirigido a meu rosto, desvio novamente, porém não tenho a mesma sorte da primeira vez, este acerta meu ombro em cheio e a dor é bem forte.
_ Vai ficar fugindo é seu frangote? – ele esbraveja.
Isso me atiça, talvez dar só um soco não fizesse mal, não é?
Descido partir para cima também, mas por sorte sou interrompido por George o segurança do bar.
_ Vocês dois, parem agora. – ele exige. George é grande, ele naturalmente causa medo nas pessoas, eu, que o conheço, sei que na verdade ele é tão doce quando uma garotinha de quatro anos de idade, mas o homem que estava brigando comigo não o conhece desse jeito, e ele fica claramente assustado com George.
_ Esse cara está me atrapalhando. – o homem diz. George o ignora.
_ Theodor, é melhor você deixar essa passar. – ele diz baixo, apenas para mim. _ Vá para casa. – sugere.
Não insisto, eu não queria brigar mesmo.
Volto ao palco apenas para pegar a case com minha guitarra e sair do bar. Vou até o estacionamento, lá encontro Phillip e Sofia encostados em meu carro.
_ Ela vai precisar de carona. – Phillip diz. _ A Quitinete dela é totalmente fora do meu caminho. – ele diz, eu sei que é mentira, é um pouco longe de onde ele mora, mas não tão fora de mão assim, Phillip está apenas tentando, mais uma vez, nos aproximar.
Meu carro é pequeno e velho, um Ford Ka, que comprei após juntar vários salários, na época que eu era professor de informática para idosos, ganhava pouco, mas meu trabalho era fácil, então não tinha o porquê reclamar.
Guardo a case na parte de trás do carro, enquanto Sofia senta-se no banco do passageiro, tomo cuidado para que a case não acabe apertando as teclas do teclado que está guardado aqui também. O teclado também é velho, mas tem um ótimo som, Sofia o toca, dependendo o repertório, porém hoje ela não tinha usado ele.
Sento-me no banco do motorista e tento ligar o carro, comemoro internamente quando ele funciona após minha segunda tentativa, pois geralmente preciso tentar umas quatro vezes até ter sinal.
Sofia está sem cinto de segurança, e sua cabeça está encostada na janela do carro, que está fechado do seu lado.
_ Eu não te tirei de lá por mal. – eu digo, puxando um assunto. _ Você verá isso quando acordar amanhã.
_ Eu sei. – ela dá de ombros. _ Não é isso. – ela diz.
_ Então o que está acontecendo? – pergunto.
_ O detetive. – ela começa e logo entendo seu descontrole de hoje, Sofia não é exatamente muito controlada, mas hoje ela tinha ultrapassado vários limites e agora tudo começava a fazer sentido. _ Ele não encontrou nada. – ela diz. _ Novamente. – ela suspira frustrada.
_ Mas você sabia que isso poderia acontecer. Você mesmo disse que não confiava nele. – digo, tentando melhorar a situação.
_ Ele não achou minha mãe, mas achou meu pai. – ela diz e percebo que nada que eu dizer agora irá ajudar.
_ Talvez ela tenha largado ele. – digo. _ Não pense no pior, Sofia.
_ Largado a ele... Abandonado a mim. – ela diz. _Ótimo.
_ Talvez ela também esteja te procurando. – digo.
_ Ela sabe onde eu moro, Theodor, ela não precisa me procurar, se ela está viva, ela sabe onde eu estou. – se irrita e começa a chorar.
_ Sofia... Eu... – eu não sei o que dizer.
_ Eu vou parar. – ela diz. _ Eu passei os últimos quatro anos buscando por ela, quatro anos recebendo nenhuma notícia, gastando o dinheiro que eu não tenho com detetives, a maior parte deles picaretas... Eu procurei médiuns, um charlatão atrás do outro, e agora? Agora eu sei que meu pai está aí, andando para todos os lados como um homem de bem. E minha mãe? Onde ela está? Ninguém sabe ninguém viu.
_ Talvez seja melhor mesmo. – concordo. _ Seguir em frente, quem sabe é só isso que falta? Talvez quando você acalmar ela apareça. – eu digo.
_ Que seja. – ela dá de ombros, nada que eu diga agora irá melhorar seu humor. _ Obrigada por hoje. – ela diz e eu acabo sorrindo de canto.
_ Você sabe que pode contar comigo sempre.
_ Eu sei. Theodor: o protetor. Sempre perto para proteger a todos que precisam. Principalmente a pobre Sofia.
_ Também não precisa ficar caçoando. – digo.
_ Não, não estou zoando com você, estou dizendo a verdade, você sempre quer proteger a todos, sempre pensa nos outros antes de agir, se você quer fazer algo, mas sabe que isso pode prejudicar a alguém, você não faz. Esse é você e isso é algo admirável. – ela diz.
_ Fico feliz que você ache isso.
_ Eu não estou aceitando nada. – ela deixa claro.
_ Eu sei, somos amigos, somente amigos. – não consigo fingir animação, e isso faz Sofia rir.
_ Talvez um dia... – ela começa, mas hesita. _ Eu consiga...
Alguém me corta e eu piso no freio instantaneamente, eu paro, mas encosto na traseira do carro que me cortou.
Puxo o freio de mão, para poder tirar o pé do freio, olho para Sofia e ela bateu a boca no painel do carro.
_ Sofia... – entro em desespero. Vejo que pouco a frente o motorista que me cortou parou o carro. Ele sai e vem em minha direção. Ele é loiro e alto, mas estou tão preocupado com Sofia que não consigo pegar nenhum outro detalhe.
_ Eu estou bem, ela diz. – mas seus lábios sangram. Ela passa a língua pelos dentes. _ estão todos aqui. – sorri, me acalmando e eu acabo rindo também.
Quando olho para fora o homem já está do lado do meu carro.
_ Eu quero conversar. – diz o motorista.
_ Eu vou te passar meu número...
_ Não, não preciso, eu quero conversar. – insiste. Está de noite e as luzes não estão muito fortes, aperto o olho para ver se reconheço o homem, chego a pensar que ele é o mesmo que procurou briga no bar, mas não é.
Ele levanta as mãos e se afasta um pouco do carro.
_ É só uma conversa cara. – diz.
_ Qualquer coisa, grava e chama a policia. – digo para Sofia e ela acena com a cabeça, concordando.
Saiu do carro e vou até o motorista.
_ Desculpa por qualquer coisa, mas foi você que me cortou. – fico na defensiva.
_ Eu sei. – ele diz bem calmo.
_ E o que você quer? – pergunto, sem entender aonde ele quer chegar.
Ele sorri antes de responder.
_ Vocês. – diz apenas. Dou um passo para trás.
_ Eu não tenho nenhum dinheiro. – digo. _ Por favor, somos apenas músicos. – digo, talvez ele ficasse com dó, não é nenhuma novidade que músicos geralmente são pobres e desvalorizados.
_ Eu sei. – ele diz e isso acaba me assustando mais ainda. Olho para Sofia e vejo que ela está desmaiada no banco do passageiro.
 Desespero-me.
_ Sofia!
Vou até a ela, mas caio de joelhos assim que chego à porta do carro.
Vê-la lá, desmaiada me dá forças para tentar levantar, mas não consigo, acabo desmaiando também.

Acordo, mas não tenho certeza.
Sei que já acordei outras vezes, mas todas às vezes pareciam irreais, coisas irreais aconteciam.
Demora um pouco para que eu perceba que desta vez as coisas a minha volta parecem bem reais.
Levanto da cama em que eu estou e o frio me pega em cheio.
Estou em um quarto branco e minimalista.
Vejo que há um homem sentado, frente a uma mesa, a outra cadeira vazia.
Eu não reconheço o homem.
Ele não parece perigoso, mas isso não impede que eu fique com medo.
_ Quem é você? – pergunto.
_ Sente-se comigo, Theodor. – ele me chama pelo nome.
_ Quem é você? – insisto.
A porta do quarto em que eu estou se abre.
O motorista que me fechou entra. Posso reconhecê-lo, pois seu cabelo loiro, quase dourado, é bem característico.
_ Onde está Sofia? – pergunto, agora em alerta.
_ Ela está bem. – o homem sentado me responde.
_ Eu quero vê-la. – exijo.
_ Primeiro eu gostaria de conversar com você.
_ Não. – eu digo. _ de novo não. – foi assim que eu parei aqui, não quero cair nesta armadilha novamente. _ Quem é você? – insisto.
_ Theodor, a questão não é quem eu sou, mas sim quem você é.

Continua

Quero agradecer as visualizações que venho recebendo, e apensar de não ter recebido muitos comentários, espero que o maior número de visualizações da página seja um sinal positivo.
Essa história é bem diferente do que eu costumo escrever por aqui, então sei que pode estar um pouco confuso para quem já me acompanha, mas prometo que tudo ficará um pouquinho mais claro no final e que todo esse “mistério” tem um motivo especial.
Muito obrigada a todos.



Anônimo: kkkkkkk fico feliz que gostou, seu comentário significa muito para mim, espero que goste da história. Muito obrigada. Bjsss

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

1. Megan


Quinta-feira


                  É a terceira chamada, na próxima eu sei que ela entrará no meu quarto, furiosa.
                  Decido levantar da cama, em alguma hora terei que fazer isso mesmo, então eu vou adiantar o começo da minha penúria.
                 Coloco o uniforme da escola, passo a minha base favorita no rosto, uma sombra leve, para destacar meus olhos claros, lápis de olho, uma batom, bem vermelho, como eu gosto, eu passo uma escova no meu cabelo loiro, só para não deixa-lo desgrenhado, mas assim que termino, decido passar uma prancha, é algo rápido, pois meu cabelo já é liso, só preciso tirar as ondulações que se formam quando durmo com ele molhado, o que foi o que aconteceu hoje.
                   Assim que desço para o café da manhã, meu pai me olha e sorri humorado, ele já sabe o que vem por aí e se diverte com isso.
               _ Megan! – minha mãe grita. _ Vá tirar esse batom vermelho agora.
               _ Mãe, me deixa. – viro os olhos e me sento na cadeira para tomar meu café da manhã.
              _ Aron, faça algo. – minha mãe pede.
              _ Filha...
                _ Pai, não há nada demais, todas as meninas na escola usam. – digo e meu pai olha para minha mãe, como sempre ele não consegue se impor.
               _ Eu já fui muitas vezes na sua escola, Megan, e eu não vejo nenhuma menina andando feito uma palhaça como você.
               _ Eu não pareço uma palhaça. – digo pegando uma torrada e passando geleia de morango nela. _ Pareço pai? – mordo a torrada.
                _ Claro que não, filha.
                _ Aron!
             _ Mas, sem duvidas se maquiar assim não é apropriado para o ambiente escolar. – diz, após ser repreendido por minha mãe.
                _ Vocês são dois caretas. – reclamo.
                _ Eu só quero que você se forme logo. – minha mãe resmunga.
                _ Eu também.
                 _ Então vá tirar essa maquiagem, pelo menos o batom.
                 _ Isso não vai me atrapalhar nos estudos, mãe.
                _ Não me fale isso, pois você viu o que aconteceu ano passado. – ela se refere ao fato de eu ter repetido o  ano no último ano da escola, isso junto ao fato de já tido tomado uma repetência antes, no 7º Ano, fez com que eu me tornasse dois anos mais velha que a maior parte das pessoas da minha classe, portanto sou a mais velha.
             _ Ano passado foi ano passado, agora está tudo bem... – digo.
             _ Isso é o que vamos ver.
              _ Você é muito pessimista, mãe, se eu repetir o ano novamente, vai ser por causa do seu agouro.
             _ Agora a culpa é minha?
            _ Claro que é. – riu.
            _ Você sabe que isso é culpa sua. Não sabe? – ela o acusa.
            _ Minha? Mas eu não fiz nada! – meu pai se defende.
            _ Exatamente, você não deu limites a essa garota, por isso ela está assim agora.
            _ Mas...
            _ Sem “mas”, você está no limite para não chegar atrasado ao trabalho e você, mocinha, vá escovar os dentes e corre para o carro, essa sua seção de beleza já lhe atrasou. – ela diz. Volto até meu quarto, mas não é para escovar meus dentes, mas sim para pegar minha mochila e pegar uma bala.
             Coloco a bala na boca e desço direto para a garagem.
              Assim que entro no carro vejo que minha mãe já está lá.
            _ Bala, Megan? De novo? Como você pretende ter dentes aos 30 anos?
            _ Mãe, não exagere.
            _ Não exagere? Eu aposto que se eu te levar no dentista hoje ele vai achar um monte de carie.
            _ Também não é assim. – ela dá partida no carro.
             _ Não é assim? Você precisa ser mais responsável, Megan, próximo ano você irá para a faculdade, como que eu lhe deixo ir se você não sabe cuidar nem dos próprios dentes? – ela indaga.
             _ Eu sei cuidar dos meus dentes, mas você mesmo disse que eu estava atrasada, escova-los só iria me atrasar mais.
            _ Então, da próxima vez, se maquie menos e escove mais os dentes. – ela diz.
            _ Você é muito chata. – digo e conecto meu celular no rádio do carro.
            _ Você e suas músicas sem nexo...
            _ Tem nexo, mãe.
            _ Essa, por exemplo, só têm batidas. Qual o nexo disso? – ela pergunta.
            _ Você sente a batida e quer dançar. – eu digo.
            _ Pois eu prefiro dançar com uma música romântica, com letras românticas... – eu aumento o volume da minha música. _ Não precisa aumentar o volume disso, basta falar que eu entendo. – ela diz.
           _ Ok, mãe, pare de falar. – ela faz cara feia, mas se cala.
        Durante o percurso vejo-a mexendo, levemente, a cabeça ao ritmo da música e quando a música troca, eu a vejo balbuciando a letra completa, mesmo ela tendo reclamado, falando que eu não deveria escutar uma cantora drogada, pois isso é uma má influencia para mim.
        _ Tchau mãe. – digo assim que ela para na porta da minha escola.
        _ Boa aula filha. – ela responde.
        Saio do carro e entro na escola.
        Hoje as aulas são mais “calmas” tenho uma aula de Espanhol no 1º horário, um de Artes no 2º, Filosofia no 3º, uma de física no 4º e dois penosos horários de matemática para terminar.
Após as aulas vou para a lanchonete em que trabalho por meio período durante a tarde. Trabalho lá como forma de punição a minha repetência do ano passado. Sei que se formar nesse ano, eu poderei sair dessa espelunca e isso me atrai mais até que o diploma.
        Chego à lanchonete em que trabalho, eu vou até o vestiário dos funcionários e troco o uniforme da escola pelo do trabalho. Enquanto o uniforme da escola é confortável o da lanchonete, além de feia, é totalmente desconfortável.
        O ambiente da lanchonete tampouco é agradável, tanto que na maior parte do tempo esse lugar anda as moscas.
         Bruno se aproxima do balcão onde estou. Como sempre, ele está  sorridente.
        _ Você ficou sabendo do evento que terá aqui? – ele pergunta.
        _ Que evento? – pergunto já respondendo sua resposta.
        _ Sr. Gonzáles está planejando fazer um evento aqui.
        _ Sr. Gonzáles sempre está planejando fazer algum evento pra ver se alguém encara entrar aqui. – digo. _ E isso nunca vai para frente.
        _ Desta vez parece que é sério, ele mandou fazer cartazes e tudo. – ele diz.
        _ Bom, nunca chegamos a este estagio mesmo. – pondero. _ Será um evento de quê? – pergunto.
        _ Leitura de Poesias. – ele faz careta. _ Eu não entendi muito bem o que isso significa.
        _ Eu tenho quase certeza que Leitura de poesias é basicamente pessoas lendo poesias. – digo obvia.
        _ Ah, eu sei, mas é que parece meio desconfortável vir para uma lanchonete como essa, com o ar-enfeite-condicionado, para alguém ficar lendo poesias. – eu acabo rindo com o “ar-enfeite-condicionado”, essa é uma piada interna que temos por aqui. Estamos no estado mais quente de todo o país, numa lanchonete fechada, em que as únicas fontes de ar corrente são a chaminé da cozinha, uma pequena janela nos banheiros (uma no masculino e uma no feminino), e a porta quando ela está aberta. Claramente que apenas esses buracos não são suficientes para refrescar o ambiente, então o Sr. Gonzáles, dono do estabelecimento, comprou de segunda mão um ar-condicionado e ele mesmo o instalou. Foi um alivio para todos, arrisco-me a dizer que conquistamos alguns poucos cliente com isso, porém toda essa felicidade durou pouco mais de um mês, do nada o ar-condicionado não quis mais funcionar, parou, reclamamos, mas ainda assim não fizeram nada, apenas o deixaram lá, pregado na parede, como um “belo” enfeite. Para se redimir por não chamar ninguém para vir concertar o ar-condicionado, Sr. Gonzáles nos deu um ventilador portátil que funciona a base de pilha. Não é muito útil, mas no desespero...
        _ Eu não sei quem é o louco de fazer isso, mas se tiver algum, ótimo, mais gorjetas. – digo e ele ri concordando.
        _ Lara virá hoje. – ele diz. E eu viro os olhos.
        _ Babe menos. – digo.
        _ Não estou babando. – ele reclama.
        _ “Lara virá hoje” – eu o zoo.
        _ Nossa, você é chata mesmo em? – eu o mostro a língua. Não posso dizer que tenho amigos no trabalho. Lara, que costumava trabalhar por aqui, acredite ou não, por diversão, sempre implicava comigo, nós mais brigávamos do que trabalhávamos, mas de certa forma nos dávamos bem, eu sei, parece confuso, mas funcionávamos juntas. Bruno hoje ocupa a posição dela. Ele não é de brigar, nem de implicar comigo, mas eu implico com ele e muito. Tem Gloria, e ela é insuportável, não nos damos nada bem, só falo com ela quando necessário.
        _ É meu dom. – digo e ele ri.
        _ Você tinha que ter algum, não é? – retruca e eu faço uma careta.
        _ Vou ignorar o que você disse. – digo _ Você deveria falar com ela. – sugiro e ele olha para mim assustado.
        _ Como assim?
        _ Ela vai vim pegar a ultima parte do que o Sr. Gonzáles deve para ela, depois disso, adeus Lara. – digo. _ Pode ser sua ultima oportunidade de chama-la para sair?
        _ Mas... – ele olha para baixo, sem saber o que fazer. _ Você acha que ela vai aceitar? – pergunta por fim. Eu acabo rindo de leve.
        Gosto de brincar com ele, não por maldade, é porque ele é fácil de ser zoado. Mas desta vez eu realmente queria ajuda-lo, pois, no fim de tudo, ele era a única pessoa que conversava comigo por aqui e ele é legal. Posso ter um lado do mal, mas não sou de toda ruim.
        _ E porque não? Vocês dois se davam tão bem. – dou de ombros.
        _ É por que... Você sabe né? A Lara é a Lara e eu? Eu sou eu. – ele sorri cabisbaixo.
        _ Não se diminua assim e muito menos coloque a Lara num altar. – digo rindo. Tudo bem a garota é linda, olhos verdes, pele perfeita... Mas poxa, eu já tinha visto meninas melhores, eu por exemplo.
        Eu acabo rindo com meu próprio pensamento.
        _ Você me acha bonito? – ele pergunta com um sorriso torto. Eu começo a devanear, Bruno não é feio, mas sem duvidas não é bonito. Ele tem um cabelo preto e sedoso muito bonito, e tem olhos castanhos que o deixa com um quê de inocência e isso é fofo, ele tem um corpo bonito, não é musculoso, mas tampouco é gordo, porém ele tem um nariz gigantesco, fino e pontudo. Ele também é extremamente branco, mas por viver quase sempre na praia, sempre está bronzeado, mas quando eu digo bronzeado, eu não digo aquele bronze bonito, eu digo algo vermelho alaranjado. Ele é basicamente um Cheetos humano. _ Eu já entendi. – ele diz cabisbaixo após meu silêncio.
        _ Não, não é isso... É porque você não é exatamente o meu tipo, mas eu acho que você é o da Lara.
        _ Sério? – um sorriso largo brota em seu rosto.
        _ Sério. – eu digo.
        _ Eu poderia convida-la para vir nesse evento que o Sr. Gonzáles está programando para cá, não é?
        _ O de leitura de poesias? – pergunto.
        _ É. – ele dá de ombros.
        _ Você é louco? – pergunto um pouco indignada.
        _ Não é só que... Ah, não sei...
        _ Por favor, Bruno, não me diga que você está com medo de gastar?
        _ Não é como se eu ganhasse muito por aqui, e você como ninguém sabe disso, e a Lara também.
        _ Bruno!
        _ Megan!
        _ Bruno!
        _ Megan!
        _ Bruno! Se for assim eu retiro o que disse.
        _ Megan!
        _ Bruno!
        _ Mas eu não tenho dinheiro.
        _ A Lara pode até não ser como eu, muito... Muito... – tento achar a palavra adequada.
        _ Fútil. – ele completa.
        _ Exigente! – eu o corrijo e ele ri. _ Como eu ia dizendo: A Lara pode até não ser como eu, muito exigente, mas ela vive numa família boa, ela recebia pouco aqui, mas era por simples diversão, não por necessidade, ela está acostumada com coisa muito melhor do que você está querendo oferece-la. – paro de falar quando vejo que ele ficou bem triste.
        _ Você acha que pode me ajudar? – pergunta. Normalmente eu diria que não, mas como fui eu a causar sua tristeza, descido redimir.
        _ Como posso te ajudar? – pergunto.
        _ Você também não trabalha por necessidade. – ele comenta.
        _ Eu sei.
        _ Mas sim por castigo.
        _ Eu sei. – digo um pouco menos paciente.
        _ Você poderia me ajudar a pagar algo melhor...
        _ Você só pode estar brincando.
        _ Só metade, ou só as suas gorjetas, eu fico te devendo uma. – ele implora.
               _ Não deva nada a ela, pois ela cobra com juros altíssimos e injustos. – vejo Bruno ficar branco, mesmo por baixo do seu bronzeado alaranjado.
 É Lara.
               _ Não te falaram que escutar conversa do outros é errado? – eu digo, disfarçando e ela se aproxima, abraçando a Bruno, que ainda não reagiu do susto.
_ Quando se trata de salvar o amigo de pessoas como você. – ela responde fazendo careta.
                _ Toda vez que eu penso que não terei que te ver novamente meu coração palpita de alegria. – eu digo sorrindo falso.
                _ Acredite, o sentimento é reciproco. – ela responde.
                _ Quer saber? Eu vou deixar vocês dois conversando sozinhos e vou trabalhar. – digo.
                _ Trabalhar? Não tem ninguém aqui. – ela diz. _ Você vai entrar em alguma rede social, isso sim.
                _ Como você a aguenta? – dirijo-me a Bruno.
_ Ele é legal, você não. – Lara responde por ele.
_ Tchau para você tá? – digo sem paciência. _ E você, Bruno, hoje eu saio mais cedo. – digo.
_ Isso quer dizer...
_ Sim, isso mesmo, você é legal. – digo e vejo que Lara faz careta. _ Não tenho o porquê ser chata com você.
Digo e entro para parte da cozinha, Glória está por aqui, o que automaticamente deixa o ambiente carregado, mas finjo que não a vejo e começo a mexer no celular.
O dia não exige muito de mim, como sempre, poucos clientes parecem, decido sair duas horas mais cedo do que o normal, já que Bruno irá cobrir esses horários para mim em troca do meu salário e gorjetas.
Ligo para meu pai, para que ele me busque e enquanto ele não chega, troco de roupa, apenas tiro a blusa da lanchonete, já que essa além de apertada e feia, também me espeta.
Quando saio dos banheiros dos funcionários, para ir embora, passo na frente da lanchonete e lá vejo um cliente bem incomum, ele está bem vestido, parece ter dinheiro. Ele é bonito, seu cabelo é loiro, um loiro dourado, incomum, mas lindo.
_ Meu Deus, que homem é esse? – Bruno escuta.
_ Não é? Como um cara desses veio parar aqui? – pergunta.
_ Tinha que ser justo na hora que eu decido sair? – fico injuriada. Bruno ri.
_ Pensa pelo lado positivo, você não está trabalhando, pode ir falar com ele. – sugere.
_ Deu certo com Lara, não deu? – pergunto.
_ Sim. – ele sorri. _ Eu ainda nem acredito.
_ Se eu não tivesse ligado para meu pai, eu até arriscaria, mas se ele descobrir que eu estou dano em cima de um cara mais velho...
_ Seu pai é gente boa.
_ E muito, mas ele é bem ciumento em certos assuntos.
_ Bom, quem sabe ele volta. Aí você tem sua segunda chance.
_ Se depender do clima e da comida ele provavelmente não volta não. – digo e Bruno ri.
_ Tchau Bruno. – digo.
_ Tchau Megan. – ele responde.
Vou até a porta, mas faço questão de mudar a rota, apenas para passar na mesa em que o cliente lindo está sentado, a me ver ele sorri e posso jurar que ele pisca para mim, seus olhos são verdes, um verde penetrante. Me seguro para não pirar, como um homem tão lindo assim pode existir?
Saio e fico na porta esperando por meu pai. Ainda são 17 horas, mas o céu já está quase todo escuro, provavelmente vai chover, o que seria bom, já que está muito quente.
Aguardo por quase 5 minutos, antes de receber o telefonema de meu pai.
_ Pai onde você está? – pergunto
“Filha, onde você e está?” – ele pergunta.
_ Na porta da lanchonete. – digo. _ Como sempre. – completo.
“Não filha, eu estou na porta da lanchonete” – ele diz.
Olho de um lado para o outro, tentando encontrar seu carro, mas não vejo.
_ Pai, eu não estou vendo seu carro. – digo. _ Você tem certeza que está no lugar certo? – pergunto.
“Eu te busco todos os dias, Megan, eu sei onde você trabalha!” – ele se exalta.
_ Pai, se você quiser, eu posso pegar um ônibus. – digo, talvez ele não esteja querendo me buscar e por isso brinca comigo.
“Filha...” – ele para alguns segundos.
_ Sim, pai?
“Você realmente está na frente da lanchonete, não está?” – pergunta, seu tom de voz muda, ele parece preocupado e isso automaticamente me preocupa.
_ Sim. – respondo, estranhando sua pergunta.
“Filha. Corra”
_ Oi?
“Corra”
_ Como assim? Correr para onde? – posso perceber que ele está nervoso, existe uma urgência em sua voz, mas não sei o porquê dele está agindo assim.
“Tente ir para um lugar seguro e quando chegar lá, me diga onde é que eu te busco, mas corra”.
_ Não pode ser para dentro da lanchonete?
“Não, filha, nem para a lanchonete, nem para nossa casa, vá para outro lugar” – fico sem saber o que fazer.
_ Pai, o que está acontecendo?
“Corre, filha, corre!” – ele grita. Eu entro em desespero e começo a correr. Não sei para onde devo correr, nem o porquê de eu estar correndo, a rua está movimentada e eu acabo trombando com várias pessoas pelo caminho, mas corro. Corro, pois vejo que meu pai está vendo algo que eu não consigo ver, algum perigo, não sei dizer o quê e tampouco sei se quero saber.
Começo correr sem direção, mas logo vejo que posso ir para escola, não é muito longe daqui, lá tem seguranças em todas as entradas e câmeras em quase todos os corredores, lá é seguro.
Viro a esquina que liga a rua em que estou até a entrada lateral da minha escola.
Tropeço. Olho para trás e me sinto uma idiota ao ver que não há nada no chão e que eu provavelmente tropecei em meu próprio pé.
_ Ei, quer ajuda? – alguém me sede a mão para me ajudar a levantar. Quando olho é o mesmo homem que estava na lanchonete. Como ele chegou aqui tão rápido?
Levanto-me rápido, a adrenalina da corrida ainda está no meu corpo, porém isso me faz sentir tontura.
_ Você está bem? – ele pergunta. _ Vi você correndo.
_ Não é nada. Só preciso chegar a um lugar. – digo. Há alguns minutos atrás eu teria adorado esse cenário, ser salva por um home tão lindo... É uma situação digna de contos de fadas, mas a incrível rapidez dele, que a pouco estava comendo tranquilamente no bar, e a coincidência de ser logo ele a me ajudar, me incomoda, algo estava acontecendo, meu pai sentiu ou viu isso, e eu sei que ele está certo.
_ Você está fugindo de alguém? – ele insiste, tendo soltar minha mão da dele, pois a tonteira já passou.
_ Não. – respondo fria. _ Preciso ir. – insisto e ele me solta.
_ Você não precisa ir a lugar nenhum. – ele diz olhando-me fixamente com seus lindos e amedrontadores olhos verdes.
_ Vou sim. – irrito-me e dou um passo para frete, porém não vou mais além. Volto a sentir tontura.
O que está acontecendo?
_ Ei. – o homem diz. _ Não precisa ter medo.
Apago.

Acordo.
Não sei onde estou, mas posso dizer pelo frio que sinto que não estou em casa.
Não me levanto, mas olho para o lado e aí vejo que não estou sozinha.


Continua
Oi gente, capítulo postado, espero que vocês tenham gostado. Sei que eu deveria ter postado ontem, mas me confundi com as datas.
Comentem o que acharam, isso é muito importante para mim.

Obrigada.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Nova Fase



Olá a todos, não sei se após o fim da ultima fic ainda tenho todos os leitores de antes, mas se tenho, quero agradecer por se disporem a me acompanhar a esta nova fase do Blogger.
A primeira história que postarei parecerá um pouco estranha, sei disso, mas ela faz parte de um projeto maior, que vocês irão descobrir no final de todo o processo. Os capítulos serão claramente maiores do que os que eu costumo escrever. Isso pode ser bom e ruim, tudo depende de quem está lendo, sintam-se livres para expressarem o que acham, para que eu possa evoluir como escritora eu preciso que vocês digam o que acham sem medo.
Espero que todos gostem desta nova fase.
Muito obrigada a todos.

Até amanhã.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Capítulo 14 (Último Capítulo)


O dia tinha sido perfeito, tive um momento em família com Jonathan e Demi, brincamos, comemos, conversamos. Havia sido uma experiência boa e natural. Por alguns momentos ficava claro os 14 anos de distancia, ainda tínhamos alguns problemas para nos conectar, ainda estávamos descobrindo o que atraia uns aos outros, o que cada um gostava e o que cada um não gostava. Descobri, por exemplo, que assim como eu, Jonathan não gosta de lentilhas, nem de tomate (a não ser o molho de tomate na pizza), e assim como Demetria, Jonathan ama misturar doce com salgado e cebola, duas coisas que eu nunca fui muito fã, apesar de comer ocasionalmente.
_ Jonathan disse que se divertiu com você e com Demi hoje mais cedo. – Nicholas diz assim que chega em casa, vejo pelo seu olhar o quanto ele está cansado, mas também vejo que ele quer conversar de verdade.
_ Sim, foi muito bom, eu não pensei que isso iria acontecer enquanto eu estivesse aqui. – admito.
_ Você realmente vai embora? – ele pergunta.
_ Eu não sei. – respondo e olho para os lados para ver se estamos realmente sozinhos. Estamos. _ Eu não quero ir, a Demi me ama e...
_ E...?
_ O Jonathan me chamou de pai. – digo e Nicholas ri para mim. _ E isso...
_ Te assusta. – ele conclui quando viu que eu não conseguia finalizar a frase.
_ Muito. – assumo. _ Isso é bobo, eu sei, era tudo o que eu mais queria, mas agora eu estou apavorado.
_ Eu sei como você se sente. – ele se solidariza. _ Quando a Demi disse que ela estava gravida eu tinha acabado de te ver, todo entubado, lá, deitado naquela cama, possivelmente por minha culpa... Cara, eu nunca senti tanto desespero.
_ Como você superou isso?
_ Porque eu vi que era a minha única opção. Eu tinha que ajudar a Demi e se necessário eu teria que ser um exemplo para aquela criança.
_ E você é.
_ Eu tento. – ele diz, tento não se mostrar muito. _ Eu cometi erros de lá para cá, fui imprudente, cabeça quente, como alguns podem dizer, tanto eu quanto Demi fizemos coisas na hora do aperto, corremos riscos, no fim tudo deu certo, mas eu não sei se repetiria tudo, caso eu tivesse a oportunidade de voltar atrás. Eu gosto da minha vida como esta hoje, se nada disse tivesse acontecido eu não teria amadurecido, nem mesmo teria descoberto minha verdadeira vocação. Mas eu também sinto falta do antigo eu, de acampar, ter energia e tempo para escalar montanhas, sinto falta de não temer pular de paraquedas, pois se algo der errado eu tenho muito a perder. Eu sei que o antigo Nick não voltará, e isso pode parecer triste, mas quando eu chego em casa eu percebo que eu posso ser feliz e muito feliz com o que eu tenho aqui, uma grande amiga e fiel escudeira como Demi, um meio filho. – rimos com a forma que ele fala. _ um sobrinho que é um filho maravilhoso, as vezes um pouco rebelde, mas bom, que sabe a hora de parar, que sabe respeitar, que sabe perdoar.
_ Você o ama, não é?
_ Sim. – Nicholas responde sem pestanejar. _ e por ama-lo, que eu te digo, Joseph, você vai sentir muita falta da nossa mãe, não há um dia que eu não sinta falta dela, mesmo após de tudo, mesmo após toda a humilhação, todas as brigas, eu ainda sinto falta dela, e você vai sentir Joe, mas fique, vale a pena, viva o amor que Demi tem para te dar, seja o pai de Jonathan, eu sei que 14 anos é muito, foi uma grande parte da vida deles, da minha vida nem se fala, mas, ainda dá tempo de recuperar.
_ Você acha que mamãe nunca voltará? – pergunto. _A ser como antes?
_ Quando nosso pai morreu e ela pediu a guarda de Jonathan, eu pensei que ela tinha mudado, eu sei que não foi isso, que no fim ela só queria descobrir um contato para poder nos infernizar mais um pouco, mas eu gosto de pensar que no momento em que ela pegou nosso telefone, que ela pensou um pouco, pensou em pedir perdão, pensou em nos pedir para voltar, pensou que sentia nossa falta, que queria sua família de volta, eu gosto de pensar também que com a sua volta que ela vai mudar, que você vai abrir a “porta” do coração da nossa mãe e que ela vai voltar a ser quem era, mas... Eu sou otimista. A Demi não pensa o mesmo que eu. Talvez porque para ela tenha sido pior, ou talvez porque ela não seja otimista. Ou no final eu seja apenas um bobo.
_ Eu quero acreditar que nossa mãe pode mudar. – eu digo. _ Eu quero que ela mude.
_ Você vai acabar voltando, não vai?
_ Eu queria que ela visse meu lado. – digo. _ Mas temo que Demi esteja certa, que se eu for eu não seja mais capaz de voltar. – digo.
_ Isso depende do quão convencido você está de que é você que está do lado certo. – Nick diz.
_ Como assim?
_ Você enganou nossa mãe para chegar aqui porque estava convencido que este era o certo a se fazer, se você voltar para lá é porque você crê que é o certo a se fazer e se você for e conseguir voltar, de duas uma: Ou você a convenceu ou ela não te corrompeu.
_ Eu tenho certeza do que quero. Eu quero minha família, minha família com você, com Demi, com Jonathan e com nossa mãe. – digo.
_ Então vá. – ele diz. _ Eu sei que há pouco lhe pedi para ficar, mas se é isso que você quer e se você acredita que pode fazer isso, vá. Eu te apoiarei no que for preciso.

Passamos uma noite calma, jantamos todos juntos, conversamos um pouco mais e assim pude conhecer ainda mais Jonathan, Nicholas estava tentando me preencher com o máximo de histórias que eles viveram juntos, como forma de me ajudar conectar mais ainda com meu filho.
Após o jantar Nicholas foi dormir, Jonathan ficou um pouco mais comigo e com Demi, conversamos um pouco mais, porém depois de um tempo ele acabou se distraindo em seu telefone e não demorou muito para ele ir para seu quarto jogar.
Demi e eu fomos ao quarto dela.
Já era tarde, mas eu não tinha sono, olhei para o lado e vi que, mesmo com as luzes já apagadas, ela também ainda estava acordada.
_ Amanhã é o dia. – eu digo e ela olha para mim.
_ O dia? – ela pergunta confusa.
_ Que eu vou embora.
_ O que? – ela, se levanta para sentar-se na cama e liga a luz do abajur a seu lado. _ Você vai embora?
_ Eu estava pensando...
_ Sabe, eu finalmente pensei que seriamos felizes. – ela me interrompe.
_ E seremos, mas...
_ Mas nada Joseph, você quer ir? Você quer abandonar seu filho? Você quer me abandonar? Então vá.
_ Demi, não é assim. – me altero um pouco. _ Eu vou, mas eu volto.
_ Você não sabe.
_ Eu fugi dela uma vez, eu faço isso novamente se for necessário.
_ Não, se você voltar ela vai estar mais atenta, você vai achar que está fugindo novamente, mas vai estar apenas trazendo ela também.
_ Eu só a trarei se ela prometer que vai se redimir.
_ Prometer é fácil Joseph, eu posso te prometer o que eu bem entender. Agora cumprir? Cumprir é algo totalmente diferente.
_ Demi, eu não estou te abandonando. Eu juro.
_ Você não sabe.
_ Você tampouco.
_ Não, eu sei sim, eu sei do que sua mãe é capaz, você que não sabe.
_ Eu também sei que minha mãe não é um monstro. – digo e Demi para por alguns segundos.
_ Não foi isso que eu quis dizer. – ela se mostra arrependida.
_ Eu entendi o que você quis dizer e sim, eu sei que minha mãe fez da sua vida um inferno, mas, ela nem sempre foi um monstro e você sabe disso, você também conheceu o melhor dela.
_ Eu conheci, e realmente achei que esse melhor sobressairia, mas isso não aconteceu, assim como eu não sou a mesma Demetria de antes, a sua mãe não é a mesma de antes, e talvez ela nem mesmo saiba voltar a ser a mesma de antes.
_ Então você quer que eu a abandone? Que eu escolha?
_ Sim. – ela hesita, mas responde.
_ Ela me pediu o mesmo.
_ Não me compare com ela.
_ Qual a diferença?
_ Eu não a machuquei do jeito que ela me machucou.
_ Eu sei, mas ela não sabe disso.
_ Eu não acredito que você está falando isso.
_ Demi, eu quero uma família completa.
_ Você tem.
_ Eu preciso da minha mãe nela.
_ Você que sabe Joseph, é você que esta escolhendo. – ela diz, se vira para o lado, deitando novamente.
_ Demi... – ela desliga o abajur.
_ Boa noite Joseph.

Quando acordamos vejo que Demi ainda não está bem comigo.
Ela passa o café-da-manhã inteiro em silêncio. Jonathan percebe e pergunta e quem entrega a resposta sou eu.
_ Eu vou embora hoje. – digo.
_ Mas por quê? – ele pergunta.
_ Eu preciso conversar com minha mãe...
_ Mas ela não gosta da gente. – ele diz.
_ Porque ela não conhece vocês... E eu vou fazê-la conhecer vocês melhor e gostar de vocês.
_ Eu não quero isso.
_ Jonathan. – quem o reprime é Nick.
_ Ela já tentou nos separar uma vez. – Jonathan se dirige a Nicholas.
_ Isso não vai acontecer novamente. – quem diz sou eu.
_ Isso não é justo. – Jonathan para de comer e cruza os braços. _ Mãe, fale alguma coisa. – ele pede. Demetria olha para ele com um olhar de dor e depois olha para mim e sinto que ela me julga.
_ Eu não posso prendê-lo aqui. – ela diz. _ Ele tomou a decisão dele.
_ Mas...
_ Jonathan, não adianta. – ela grita. _ Agora vê se come e pare de insistir. – o garoto não obedece.
_ Não estou com fome. – sai da mesa e volta a seu quarto.
_ Isso foi exagero, Demi. – Nicholas diz.
_ Quer saber? Eu também perdi a fome. – ela diz, se levanta e também vai a seu quarto.
_ Isso não vai dar certo. – eu digo.
_ Eu converso com eles depois. – Nicholas diz. _ Só prometa que vai fazer sua parte. – ele diz. _ Você vai voltar.
_ Eu vou voltar.

Minha despedida não foi nada como eu pensei que seria, ganhei um abraço rápido de Jonathan e de Demi apenas um adeus, nada mais.
Nicholas me leva até a rodoviária e eu uso parte do dinheiro de Jacob me deu para comprar a passagem de volta, fico feliz ao ver que voltarei com a maior parte sem gastar.
_ Não fique assim, tudo vai dar certo no final.
_ Eles me odeiam agora, não é?
_ Não, eles só estão chateados. Se te consola, saiba que ambos sabem fazer um drama como ninguém. – riu.
_ Sabe. Vá em paz, faça o que você precisa fazer, e volte, vamos estar de braços abertos.
Abraço meu irmão e entro no ônibus.
O ônibus partirá em breve, então me acomodo em minha poltrona.
Percebo que o telefone está vibrando e quando vejo o número me surpreendo. É minha mãe.
_ Oi. – digo.
_ Oi. – sua voz é calma.
_ Aconteceu alguma coisa? – pergunto.
_ Talvez.
_ E o que foi?
_ Eu.
_ O que aconteceu com você? – pergunto, talvez sua voz não estivesse calma, mas sim fraca e ela estivesse doente.
_ Nada de grave. – ela me acalma. _ Demi me ligou. – ela diz.
_ O que?
_ Sim, eu sei, eu também não esperava por isso. – ela diz. _ Ela disse que você esta voltando.
_ Sim. – digo. _ Eu prometi que voltaria.
_ Você disse que queria se dar bem com seu filho. – ela me relembra.
_ E quero. – vejo que o motorista fecha a porta do ônibus, estamos prestes a partir. _ Ele é um ótimo menino, e eu quero que você o conheça.
_ Eu sei. Ela disse o porque de você está voltando.
_ Eu pretendo voltar para cá um dia. – eu digo.
_ Ela me deu o endereço dela. – minha mãe disse.
_ Como assim?
_ Fazer as pazes lhe fará feliz? – ela pergunta.
_ É tudo o que eu mais quero.
_ Eu ainda tenho minha convicção, mas eu te amo, eu quero ver você feliz.
_ Mãe, eu estou entendendo direito? – sinto meu coração disparar.
_ Sim, ela disse estar disposta a me perdoar e eu disse o mesmo a ela.
_ Então...
_ Fique com seu filho, Joseph, eu ainda não estou preparada para vê-los, mas... Eu pretendo ir aí, eu tentarei ser uma boa avó, assim como seu pai foi um bom avô. – ela diz.
_ Mãe, eu te amo. Eu te amo muito.
_ Eu também te amo. Eu te amo muito, meu filho.
Assim que desligo o telefone me levanto e vou até a frente, onde o motorista fica.
_ Abre a porta. – peço.
_ Que? – ele pergunta confuso.
_ Eu não vou mais viajar, abre a porta.
_ Senhor, eu não posso.
_ Abra a porta, por favor, abra a porta, eu preciso sair. – começo a gritar o que o assusta.
Recebo alguns olhares de reprovação dos outros passageiros, mas ignoro.
O motorista abre a porta e eu saio.
Já não estamos na rodoviária, mas estamos perto, ainda posso ver o prédio.
Volto para lá.
Vou até a passarela em que o ônibus em que entrei estava estacionado, na esperança de ver  Nicholas, mas ele já não está mais lá.
Parto então para a entrada.
Quando estou saindo vejo alguém que me parece família, ela está se afastando, indo embora.
_ Demi! – eu grito. Ela olha. Não tinha visto, mas Jonathan também estava com ela, um pouco mais a frente.
Demi volta correndo até a mim, Jonathan também corre a minha direção.
Quando ela chega nos beijamos.
_ Eca. – Jonathan diz, e nos separamos, eu o abraço.
_ Você vai ficar? – ela pergunta.
_ Sim. Seremos uma família. – eu digo.
_ Sempre. – ela diz.
_ Sempre. – eu respondo.

FIM

Oi gente, sei que estou postando atrasado, mas eu não consegui terminar este capítulo a tempo, eu queria colocar muita coisa e tive que me reprogramar para não ficar muita coisa de uma vez só, mas não ficar um fim sem sentido nenhum. 
Queria agradecer a todos que acompanharam esta história, foi pequena, mas que gostei muito de fazer.
Espero que tenha gostado do final e em breve chegarei com novidades.

Muito obrigada por tudo