sábado, 12 de agosto de 2017

16. Planos falíveis.


                O restaurante que Lucas se encontra com o delegado permite que seus clientes optem por comer em cabines reservadas, longe dos olhos do publico geral, e isso é imprescindível para o assunto que ele quer ter com o homem.
                Após lhe contar o que quer, o delegado parece ponderar sobre o pedido.
                – Esse assunto rendeu muito na polícia. – ele diz enquanto saboreia o prato de entrada do restaurante. – o retrato-falado não deu muita informação. – diz olhando para o garoto, que não consegue esconder o alivio. – mas o aleijado é persistente e tem dinheiro. – diz de maneira bruta. –  Irão fazer uma pericia no carro, em busca de algum DNA. – anuncia rindo de canto. – Para você ver como sou bonzinho, lhe passarei mais uma informação totalmente de graça. A pessoa que os salvou, deu seu testemunho anonimamente, e ele falou sobre certo carro esportivo. – diz. – Assim que o juiz liberar, os investigadores farão buscas em câmeras da região, para pegar a placa do carro. – Lucas não tocou em nada da comida. – Melhor você se livrar do carro logo.
                – Eu irei vendê-lo.
                – Não. – o delegado diz. – vendê-lo seria um tiro no pé, pois você estaria entregando seu atestado de culpa. Queime, abandone em algum lugar, finja que ele foi roubado.
                – Todo mundo sabe que meu carro não foi roubado. Meu pai sabe que não foi roubado. – o delegado arqueja as sobrancelhas.
                – É, meu rapaz, talvez seja bom começar a rezar então.
                – Como assim, não há nada que você possa fazer? – pergunta indignado.
                – Bom, posso fazer algumas imagens desaparecer, talvez um B.O. de um carro roubado, posso até mudar o nome do dono de um carro, posso até mesmo falar quem é a testemunha, mas... Você sabe, não é? O preço pode sair salgado.
                – Quero tudo isso, todos esses serviços. – Lucas diz convicto e o delegado gargalha.
                – Você ainda não sabe os valores. – ele começa a não mais levar o garoto a sério.
                – Então diga. – Lucas não hesita e o delegado para se sorrir.
                – Um milhão e meio. – fala e Lucas tenta não parecer surpreso pelo valor, ele não tem nem um terço disso na bolsa, e no banco ele tem guardado pouco mais da metade do valor.
                – Lhe pagarei a medida que me trazeres os resultados. – diz. O delegado nega.
                – Exijo adiantamento. – Lucas o entrega um envelope, com todo o dinheiro que havia tirado do banco. – Quanto tem aqui? – ele pergunta.
                – Alguns mil. – Lucas responde sem jeito.
                – Quanto? – o delegado exige um número.
                – Cinco mil. – o garoto responde.
                – Você acha que eu sou um otário? – o delegado pergunta. – Você chama isso de adiantamento?
                – Foi o que eu pude tirar no banco. – Lucas tenta se justificar.
                – Olha, eu vou deixar essa passar, mas se no nosso próximo encontro você vier com um valor a baixo de cinquenta mil, você pode esquecer de qualquer ajuda minha e se precisar ainda lhe prejudico. – ameaça.
                O almoço acaba e Lucas vai até sua casa descansar um pouco para se preparar para a noite de trabalho, ele teria que faturar muito bem hoje, pois ele precisa de dinheiro mais que nunca.
                Em casa tudo parece normal, o pai não está, os empregados fazem seus serviços, a mãe anda de um lado para o outro, sem fazer nada e sem nenhum interesse de arrumar algo para fazer, e a irmã está trancada no quarto, isolada.
                Lucas decide não falar nada com ela, ainda, pois quer ter mais notícias do delegado antes de abrir a boca.
                O garoto passa o dia no quarto, entrando em contato com seus clientes, para avisá-los que hoje havia entregas. Quando o sol já se pôs, ele toma um banho e se arruma para sair de casa.
                – Aonde você vai? – a mãe pergunta, ao vê-lo saindo de casa.
                – Vou sair, ele dá de ombros.
                – As férias já acabaram, comece a agir como um estudante... – sua mãe começa a reclamar, mas ele sai e a deixa falando sozinha.
                Não querendo usar seu caro esportivo, ele chama um táxi. Primeiro ele vai até seu fornecedor, ele já tinha confirmação de vários clientes e seu estoque não seria suficiente.
                Após conseguir mais drogas, ele vai até o apartamento de Rebecca.
                 Quando chega lá, ele é surpreendido pela presença de Sara, que parece ter acabado de chorar, ambas ainda usavam os seus uniformes.
                – Espere, vocês voltaram? – pergunta a loira, assim que o vê entrando no apartamento. Rebecca olha assustada para Lucas, sem saber como responder.
                – Sim. – Lucas mente e agarra Rebecca pela cintura. Rebecca não o desmente.
                – Então era isso que você estava me escondendo? – Sara pergunta.
                – Era. – Rebecca ri nervosamente.
                – Uau, não é algo bom, mas pensei que era outra coisa.
                – Outra coisa? – Lucas sente Rebecca tremer.
                – É, pensei que era algo mais sério. – Sara dá de ombros. – Bom, acho que já deu a minha hora. – ela começa a se despedir da amiga com um longo abraço, Lucas se afasta, para não atrapalhar as garotas e de longe tem a impressão que elas estão sussurrando algo no ouvido uma da outra.
                Sara se despede de Lucas apenas com um ‘tchau’ e um aperto de mão.
                – O quê você está fazendo aqui? – Rebecca pergunta brava, assim que fecha a porta, após ver a amiga entrando no elevador.
                – O quê eu estou fazendo aqui? – ele começa a rir. – Você sabe muito bem o quê eu estou fazendo aqui. – responde.
                – Você me contratou depois desapareceu por uma semana. – Rebecca dá um soco no peito de Lucas que se enfurece.
                – Você está louca? Eu não te abandonei, eu simplesmente não precisava da sua ajuda, pois não estava indo a boate.
                – Eu sei disso! – ela grita. – Descobri isso quando fui lá, no dia seguinte e Virginia me contou.
                – Você voltou lá sem mim? – ele a questiona surpreso. – Porque você fez isso?
                – Você não me disse que não era para voltar. – se justifica.
                – Mas se eu não vim te buscar, é porque não era para você ir!
                 – Você não disse nada disso, você queria que eu adivinhasse?
                – Não venha colocar a culpa em mim.
                –Tudo o que você tinha que fazer era ter me avisado!
                – Tá, tudo bem, me desculpe, mas agora você já sabe e hoje eu estou aqui para lhe levar novamente.
                – Não posso. – desta vez ela fala baixo.
                – E porque não?
                – Quando eu voltei a Virginia me apresentou como uma das garotas. E ela me pediu para não voltar lá enquanto eu não for maior de idade. – resume. Lucas faz uma careta.
                – Você virou puta? – ele pergunta enojado.
                – Você me colocou nessa situação! – ela responde se sentindo ofendida.
                – Não, você se colocou nessa situação, eu te levei lá para vender drogas, não para virar uma vadia. – Rebecca se surpreende pela maneira bruta que ele fala.
                – Você me levou com mascara, você sabia que as meninas de mascara eram garotas de programa. – ela volta a o acusar.
                – Mas você pode se recusar a ir para cama com eles, a áascara tem um significado, mas não te torna uma escrava, nem mesmo Virginia lhe abrigaria a nada, se você fez, foi porque quis. – ele bate o pé. – Quer saber? Não me importo mais... Eu quero mais é que todos descubram que você é uma pobre. – ele quase cospe em Rebecca.
                – Você não pode contar...
                – Eu não vou contar. – ele a corta. – Você não tem um tostão e agora tampouco tem mais emprego, mais cedo ou mais tarde vão lhe descobrir. – ela diz. – E eu vou estar lá para rir de você, sua puta. – Rebecca se segura para não começar a chorar.
                – Porque você está falando assim comigo, eu posso voltar próximo mês. Isso tudo é sua culpa. – ela começa a dizer, mas Lucas não quer mais discutir. Ele mesmo destranca a porta do apartamento e sai, deixando Rebecca para trás, totalmente acabada.


Continua




Métis: Muito obrigada por comentar e fico muito feliz por saber que está gostando. Me inscrevi no seu blogger e amanhã já começarei a ler suas histórias também ;). Bjssss

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

15. O Primeiro dia de aula.

Capítulo em homenagem ao grande cantor Chester Bennington e ao meu grande amigo Haroldo. Que vocês estejam ao lado de Deus.



                É um novo dia, o primeiro dia de aula. A diretora já terminou seu discurso e todos se dirigem para suas respectivas salas. Tudo parece normal. Os alunos se reencontram pelos corredores, os professores passam novas matérias... Após as férias conturbadas, a vida parecia ter voltado no eixo para os nossos quatro personagens.
                Para Lucas tudo estava bem, ele iria conversar com o delegado logo após a aula e durante a noite voltaria aos negócios com Rebecca. Rafael tinha dobrado seu pai, que acreditou em sua história e sua mãe não negou quando foi questionada pelo marido, ela inclusive começou a agir menos fria com o filho, para não mais despertar a curiosidade do homem. Rebecca economizava o que tinha ganhado no clube de Virginia, e considerava retornar ao local quando fosse maior de idade, ela não sabia se conseguiria comprar seus materiais escolares, pagar a mensalidade e todas as contas da casa com o dinheiro, caso não consiga, ela tentará recorrer a Lucas ou a Sara, mas ela tem esperança de conseguir lidar com isso sozinha, o pai parece estar melhorando, bebendo menos, talvez ele logo se reerga e volte a sustentar a casa. Sara tinha se livrado dos enjoos, e agora conseguia fingir melhor que nada tinha acontecido. Talvez o desaparecimento de Heitor a ajude, assim ela tem certeza que ele não contará nada. Ela tinha começado a tomar o pó que Eleonora tinha lhe dado no dia anterior, e estava confiante de que Ricardo nem mesmo desconfiaria sobre sua gravidez. Enfim, tudo estava dando certo.
                Durante o intervalo Rebecca e Sara conversaram, nenhuma das duas falou nada sobre seu segredo e isso ficou claro, pois ambas não pareciam tão à vontade na conversa, elas se comunicavam genericamente, o assunto ‘férias’ foi veemente evitado. Ricardo e Rafael também se falaram, o transexual se animou ao perceber que o amigo estava tentando se reaproximar dele, pois desde que brigara com Linda, se sentia muito sozinho e mesmo sentindo que sua amizade com Ricardo era superficial, ele aceitaria isso de bom grado.
                A manhã passa, o primeiro dia de aula termina e a realidade volta a bater na porta de alguns. Lucas corre para se encontrar com o delegado, ele sabe que o homem cobrará muito por menor que seja o serviço, por isso, antes de encontra-lo, ele passa no banco e tira a maior quantidade de dinheiro permitida, um pequeno rombo em sua conta bancaria que deverá ser preenchida mais a noite. Sara e Rebecca vão saindo juntas do colégio, mas a supervisora chama Rebecca antes que ela possa colocar o pé na rua.
                – Vá lá, eu te espero. – Sara diz simpática. Rebecca assente.
                A garota é levada ao escritório da supervisora, que parece desconfortável em dar a notícia.
                – Sinto muito por lhe chamar aqui para abordar este assunto, mas já tentei fazer contato com seu pai por inúmeras vezes e não obtive nenhuma resposta, está tudo bem com ele? – ela pergunta e Rebecca começa a ficar nervosa com a situação, parece ser algo sério e ela teme que isso a obrigue a revelar o falimento de seu pai.
                – Ele estava um pouco doente, mas agora está melhorando. – Rebecca mente.
                – Entendo. – a mulher não parece satisfeita com a resposta, mas aceita. – E você acha que ele pode vir ao meu encontro até, no máximo, amanhã? – pergunta esperançosa.
                – Não sei... – ela pondera. Rebecca não sabe qual é o assunto. No fundo ela gostaria que o pai resolvesse este problema, mas será que amanhã ele acordará bem? Se não, ele pode muito bem envergonhar Rebecca frente a todos, chegando bêbado na escola, ou pior, ele pode muito bem revelar que agora eles são pobres. – Ele foi a uma viajem de negócios, ele disse que chegaria ontem, mas parece que houve um imprevisto e agora ele não sabe muito bem qual será o dia de sua volta. – a mulher faz um semblante triste.
                – Como eu já disse, sinto muito por lhe chamar para tratar deste assunto, é algo que só resolvemos com os responsáveis pelos alunos, mas temo que não posso esperar pela volta de seu pai. – suspira, mas logo depois sorri. – Rebecca, o cheque que foi dado para pagar sua matrícula voltou por duas vezes, e recebemos informações de alguns professores que você não tem o material completo. Temo que você não possa continuar estudando aqui, se isso não for resolvido logo.
                – Mas hoje é o primeiro dia de aula ainda, eu não tive tempo de comprar meu material e... – ela se cala, não sabe como arranjar uma desculpa para o cheque da matricula.
                – Eu entendo, você sabe das regras da escola, muitas instituições aceitam que o aluno adquira os materiais ao decorrer do ano, mas aqui eles sempre deverão estar completo no primeiro dia de aula. – a mulher diz. – você sempre cumpriu essa regra. – a relembra. – poderíamos relevar a questão do material, se a matricula tivesse sido efetuada, mas o acumulo das duas situações... – deixa no ar. Rebecca não sabe o quê dizer. – Vocês estão com algum tipo de problema em casa? – ela pergunta.
                – Não! – Rebecca quase pula ao responder, de tanta urgência que sente em proteger seu segredo. – Eu irei olhar com meu pai, prometo que até o fim da semana tudo estará resolvido. – a menina diz sem nem mesmo respirar.
                – Rebecca, eu sinto muito, mas não temos uma semana, ou seu pai acerta, pelo menos, a matrícula até amanhã, ou você não poderá assistir as aulas. Se ele acertar a matrícula, permitirei que fique essa primeira semana de aula sem o material completo.
                Rebecca sai da sala em estado de choque, ela já havia usado parte do dinheiro que arrecadara de Virginia: Pagou a conta de luz e internet, fez a compra do mês, garantindo que a geladeira não ficasse vazia, comprou três dos dez livros exigidos pela escola como parte do material escolar, comprou cinco dos seis cadernos que também fazem parte do material da escola, pagara o táxi de ida e volta, para quando ela ia fazer essas compras, e hoje cedo ela pagara um táxi para vir até o colégio. O que restara, ela iria usar para pagar a conta de água e o transporte de sua casa para o colégio e vice-versa, se no fim sobrasse algo, ela tentaria pagar a primeira mensalidade da escola. Mas todo seu plano tinha ido por água abaixo, ou ela pagava a conta de água, comprava o resto dos materiais e se transportava de táxi no trajeto casa-colégio, ou ela pagava a matricula. O problema é, se pagasse a matricula, não conseguiria comprar o resto dos materiais e seria expulsa do mesmo jeito, contudo, não pagar a matricula revelaria ao mundo que ela estava falida. Rebecca não tinha se sujeitado a ficar a noite inteira torturando um velho nojento para no fim das contas ainda ser descoberta. Ela teria que fazer algo.
                Sara, ao perceber o torpor da amiga, decide acompanha-la até a sua casa, o que foi bom, já que Sara decidiu usar seu carro particular, salvando Rebecca de gastar com o táxi.
                Assim que chegam ao apartamento de Rebecca, Sara percebe que há algo de errado, a casa não está suja, mas tampouco está limpa e não há nenhum empregado por perto.
                – O que está acontecendo, Rebecca? – Sara pergunta.
                – Nada de sério. – a menina tenta disfarçar. – Você que parece estranhada. – joga na cara, pois sabe que isso pode ser sua salvação. Sara suspira indecisa e se joga na cama da amiga, que se senta ao seu lado.
                Sara se sente mal por esconder algo da amiga e acredita que ao contar a ela o que está acontecendo, Rebecca também se abrirá para ela, revelando o que há de errado em seu apartamento.
                – Se eu te contar você jura que mantem segredo? – pergunta receosa.
                – Claro. – Rebecca garante.
                – Você precisa jurar mesmo. – se ergue, ficando sentada na cama.
                – E alguma vez eu já contei algum segredo seu para alguém? – Rebecca questiona, se sentindo um pouco ofendida pela hesitação da amiga, porém ela não a julga, ela tampouco teria coragem de falar a amiga sobre o que a aflige.
                – Eu estou gravida. – Sara revela com a voz baixa.
                – Você o quê? – Rebecca deixa o queixo cair. Sara não repete. – Eu não acredito. – Rebecca arregala os olhos.                 – No fim Ricardo não resistiu mesmo em? – começa a rir, deixando o choque da notícia se esvair de seu corpo. Sara não a acompanha na risada e Rebecca percebe que há algo mais. – Sara... Você...
                – O filho não é de Ricardo. – ela não consegue olhar para os olhos da amiga, mesmo sabendo que a mesma não a julga, ela nunca tinha feito algo tão sujo antes. – É de Heitor. – revela e Rebecca perde a respiração por alguns segundos.
                – Sara o que você fez? – diz por fim.
                – Eu não sei, mas eu vou concertar. – diz e cai no choro. Rebecca se aproxima e abraça a amiga, consolando-a. – Eu juro que vou concertar isso.

Continua




Métis: Olá, desculpa pela demora em postar, mas espero que você tenha gostado da história até então. Muito obrigada por comentar. bjssss

sexta-feira, 14 de julho de 2017

14. Mantendo o Segredo (Parte 2)



Durante as férias           

                Rebecca ainda não entendia muito bem o sistema do lugar, no começo ela pensou que seria como um leilão, e a cada plaquinha que fosse levantada, mais alto o número ficaria, e ao mesmo tempo, a única coisa que Rebecca podia pensar era de um dia, quando ainda era criança, e seu pai lhe levou a um leilão de equinos. Seu pai queria fechar contrato com um grande empresário e como o homem era apaixonado com cavalos, o seu pai queria presenteá-lo. A garota não podia imaginar que se permitira chegar a este ponto.
                Mas agora ela via que não havia nada disso. Ela não precisou se exibir no palco, nem mesmo houve gritarias, plaquinhas ou martelo. Os garçons e até algumas meninas, chegavam e entregavam um pequeno papel nas mãos de Virginia. No papelzinho havia números, que era o valor que o cliente estava lançando, e o nome do cliente escrito embaixo. Era algo silencioso e, teoricamente, menos degradante.
                Virginia parecia analisar os lançamentos, sempre descartando os valores menores e ficando com os mais altos. A garota sempre foi rica e se acostumou a números extravagantes, mas não deixava de se espantar com o valor escrito.
                Nove mil.
                Nove mil e duzentos.
                Dez mil e quinhentos.
                Doze mil.
                Treze mil e novecentos.
                – Pare. – diz Virginia quando outro garçom vem lhe entregar um lance. – Será esse. – ela decide com o papelzinho na mão.
                – Mas o lance que eu trouxe é maior. – o garçom observa.
                – Não importa. – ela responde dura. – É esse. – bate o pé. Rebecca fica sem entender. – Jamais diga que eu não tentei lhe ajudar. – fala e Rebecca não se manifesta, principalmente porque não entende o comentário da mulher. – Você teve sorte, aproveite esse dinheiro, pegue-o e só retorno aqui quando já fores maior de idade. – diz séria. A menina apenas assente, concordando com a dona do estabelecimento.
                Assim que o vencedor levanta e vai à direção de Rebecca, ela se assusta com sua aparência. O homem é baixinho e barrigudo, ele veste uma calça social e uma blusa polo bem justa, ele carrega uma mala de mão.
                O cliente parece estar familiarizado com o ambiente e se dirige, sem pestanejar, até o quarto reservado, no fundo do estabelecimento.
                Era a primeira vez que Rebecca entrava ali, e seus olhos não podiam deixar de observar a todos os detalhes. A meia-luz, a cama redonda e enorme, com lenções brancos, espelho no teto...
                O homem logo tira sua blusa e revela um peito cheio de pelos, o que faz o estomago de Rebecca revirar. Ele tira a calça e ele usa uma cueca apertada e preta.
                Rebecca ainda estava próxima a porta, no fundo temia adentrar ao quarto, mas sua curiosidade a obriga a aproximar-se mais, a cueca não era apenas justa e preta, era uma cueca de couro.
                O homem começa a retirar alguns objetos de sua mala. A garota teme pelo que virá.
                – Pegue. – o homem diz a Rebecca, entregando-lhe um... Chicote?
                Ele se põe de quatro encima da cama e assim fica. Ao ver que nada acontece, ele olha para trás, onde Rebecca se encontra paralisada.
                – Bate. – ele pede e começa a balançar a mão, demonstrando-a como ele quer que ela faça.
                A garota está em choque, mas faz como o cliente manda, mas ela não agrada.
                – Mais forte. – ele pede. Ela o faz. – Não, não, mais forte. – ele insiste e Rebecca o chicoteia com vontade, e ao escutar o grito do cliente, se assusta, mas ele não a xinga, não reclama, apenas sorri, feliz com o que ela faz. – de novo. – pede e ela repete.
                Aquilo não era nada do que ela pensava que seria, porém, ela agora entendia o que Virginia queria dizer. Aquele homem não queria ir para cama com Rebecca, queria apenas que ela o batesse com o chicote e fizesse outras bizarrices.

                O desespero de Lucas poderia ser sentido de longe, mesmo ele se esforçando ao máximo para não demonstrar.
                O anúncio já estava publicado, o garoto estava fazendo de tudo para se livrar das evidências.
                – O que está fazendo? – o pai pergunta. – Porque você não foi ao escritório hoje? – reclama.
                – Estou vendendo o carro. – é sincero.
                – Como assim? – o pai se choca.
                – Não vejo necessidade ter um carro desses, temos tantos outros. – começa a mentir.
                – Você me atormentou meses por esse carro! – volta a reclamar.
                – Pois é, eu sei... Talvez eu esteja amadurecendo. – ele tenta amaciar o pai. – Não ligo mais para carros esportivos, acho que usar o carro da família já está bom. – dá de ombros.
                – Eu não vejo isso como amadurecimento. – o pai bufa.
                – Pois eu vejo. Vou reaver seu dinheiro.
                – Não completamente.
                – Mas, pai...
                – Olhe, eu não sei o que está acontecendo nessa casa, sua irmã agora é doida e você está indo para o mesmo caminho. Se isso for tédio, viagem para algum lugar, vocês ainda tem alguns dias antes da volta as aulas. Aproveitem de uma maneira mais produtiva. – O pai seguia com seu sermão, mas Lucas já tinha parado de prestar atenção há um bom tempo. O que o pai lhe falara, lhe dera uma ideia.
                Assim que se desvencilha do pai, Lucas corre para o quarto da irmã, que já dorme, mesmo ainda sendo cedo.
                – Acorde. – ele a sacode e a menina solta um grito de susto. O irmão não sabe, mas ela estava no meio de um pesadelo, ela sonhava com fogo e isso era algo recorrente desde o acidente. – Eu já tenho uma ideia. – Lucas ignora o susto da irmã e começa a falar. – Vamos viajar. – diz e Jade, agora mais consciente do mundo a sua volta, faz uma careta.
                – A gente pode ser preso e você quer viajar? – pergunta.
                – Tudo bem, acho que você não entendeu. – ele reformula. – Vamos fugir.
                – Está doido? E a escola? – Lucas ri.
                – Vamos ser presos, Jade. Sério que você está pensando na escola? – ele pergunta e a menina se cala por um instante.
                – Eu não sei se isso é uma boa ideia. – ela diz.
                – Claro que é.
                – O que você acha que o papai vai achar disso? – ela o questiona.
                – Ele não precisa saber.
                – Ele vai nos achar, Lucas, você sabe que ele vai. – e ao escuta-la dizer isso, o entusiasmo do garoto murcha.
                – Podemos pedir a ele para nos mudar de escola, que nos matricule em uma escola em outro país.
                – Ainda seremos presos.
                – Não, lá seria outra polícia, teríamos que ser extraditados... Seria uma confusão tão grande... – Lucas nem sabe se o que fala é verdade, mas ele sabe que estando longe, a captura dele e de sua irmã seria mais complicada.
                – Lucas, pare. – a irmã ordena. – Eu sei que não sou a pessoa ideal para dizer isso, mas: Se acalme. – Lucas ri em deboche. – Eu sei, eu sei, eu fui a primeira a me desesperar. Mas eu pensei... Até agora não aconteceu nada, eu estou procurando por notícias, mas não apareceu nada... Talvez o retrato-falado não tenha sido eficiente. Talvez ele não tenha nos enxergado direito. – ela diz. – Deveríamos olhar melhor, saber como está sendo a investigação. Estamos perdendo a cabeça, e nem mesmo sabemos se é necessário. – ela finaliza e Lucas pondera.
                – Eu sei exatamente o que vou fazer. – ele diz após pensar.
                Lucas corre para seu quarto e procura em seu celular o contato de um delegado, amigo da família.
                Ele disca o número.
                “Alo” – o delegado atende.
                – Delegado Martins?
                “Sim, é ele... Lucas, é você?” – o homem pergunta surpreso.
                – Sim, sou eu. – confirma.
                “Tudo bem, garoto?” – pergunta preocupado. Ele já havia feito vários serviços para o pai de Lucas, mas nunca havia recebido um telefonema do garoto.
                – Sim. – responde. – Eu preciso de um serviço seu. – fala. – Pagarei bem. – deixa claro.
                “Diga e eu farei.” – confirma e Lucas sorri aliviado. O seu inferno está prestes a se acabar...
                Ou prestes a começar?

Continua


sexta-feira, 30 de junho de 2017

13. Mantendo o segredo (Parte 1)


Durante as férias

                Os perfumes preferidos de Sara, a fazem mal, os alimentos, mesmo os mais leves, a fazem mal. Nunca em momento algum, a garota achava que se encontraria nessa situação.
                Percebendo o incomodo da namorada, Ricardo a questiona.
                 – Tem certeza que está tudo bem?
                – Sim. – ela insiste. – Acho que comi algo que me fez mal. – assume.
                – Você quer que eu a leve para o hospital? – pergunta.
                – Não. – ela deixa um pouco do desespero transpassar. – Meus pais podem fazer isso, fora que é só um mal-estar, não é como se eu estivesse doente. – tenta se tranquilizar, para assim também tranquilizar o namorado.
                – Você que sabe. – ele finalmente da de ombros. – Você quer voltar para casa? – pergunta. – Se estais tão mal, não creio que seja uma boa ideia irmos comer. – ele percebe.
                Ricardo tinha chamado Sara para passar o dia com ele, já que a as férias estavam acabando e ambos mal tinham se visto. Foram ao shopping, Sara aproveitou para fazer algumas compras e agora Ricardo havia dado a ideia de irem comer.
                – Acho melhor mesmo. – ela concorda. – Você não ficará triste? – ela pergunta.
                – Claro que não, tivemos um bom dia juntos, e não será o último. – ele garante e Sara sorri. Como que ela iria fazer para contar a verdade a ele?
                Os dois retornam para a casa de Sara e lá ficam conversando por mais um tempo, Ricardo tenta engatar um envolvimento mais quente, com beijos longos, mas Sara não consegue, a sua consciência não permite. No fim, Ricardo a deixa e vai para sua casa.
                Ás seis da tarde, quase na hora de encerrar seu expediente, Eleonora entra no quarto da patroa, que, por estar com mal-estar, já se encontra deitada. A empregada se aproxima da cama, mas não o suficiente para encostar, sabe o quanto a menina é nervosa, não quer que ela brigue.
                – Senhorita Sara. – ela a chama com a voz delicada. Sara abre os olhos e faz uma careta ao ver a empregada, mas não diz nada, talvez a gravidez já esteja lhe amolecendo. – Trouxe algo para você. – a emprega abre a mão, revelando um saquinho com um pó cinza.
                – O que é isso? – Sara se levanta num pulo.
                – É o que eu lhe prometi. – Eleonora responde. – Para... O... – fica indecisa se deve falar a palavra ‘aborto’ ou não.
                – Ah... Sim... – Sara sorri e pega o saquinho.
                – O gosto é um pouco forte, amargo, mas não deve lhe incomodar muito, coloque num suco ou vitamina, ou iogurte, uma colher de sopa por dia, durante uma semana.
                – Uma semana? – Sara reclama.
                – Pode ser que funcione antes, mas para garantir... – Eleonora orienta. – Você não deve sentir nada se seguir as orientações. No fim do processo, refaça o teste. – a mulher sorri.
                – E quanto lhe devo? – Sara pergunta. Eleonora hesita.
                – Só quero lhe ajudar. – responde por fim. Sara fica desconfiada da bondade, ninguém faz isso.
                – Amanhã deixarei algo para você na primeira gaveta da minha escrivaninha. – Sara diz, ela precisa garantir o silêncio da empregada. – Como forma de agradecimento. – finaliza. Eleonora apenas assente e se vai sem dizer mais nada.


                Enquanto isso, Rafael vive dias infernais em sua casa. Ele tentou arranjar desculpas para justificar os pontos na cabeça da irmã, mas nada convencera a mãe, e desde então, ela não mais fala com ele, percebendo isso, o pai, preocupado, vai falar com o filho.
                – Não entendo muito bem o que está acontecendo com vocês dois, tentei falar com sua mãe, mas ela disse que era para eu falar com você. – o pai parece sem jeito, não sabe como falar com o filho, pois nem mesmo sabe por onde começar.
                – Não é nada, pai. – Rafael tenta desconversar.
                – Filho, eu sei que não sou tão presente, mas ainda sou seu pai, eu amo a nossa família, vê-la assim... Se destruindo... Eu quero ajudar.
                Rafael hesita, seu pai parece aberto a escutar, mas o quanto ele está aberto a aceitar o que ele tem a dizer, ainda é uma dúvida.
                Falar sobre sua transexualidade com o pai seria o último passo para a conquista da sua liberdade, pois após isso, ele aceitando ou não, Rafael começaria sua transição. Mas isso, ao invés de incentiva-lo, só o deixava mais nervoso. O‘não’ ou o ódio do pai seria demais para ele, que já tanto sofria pela forma fria que a mãe vinha lhe tratando.
                Rafael desiste.
                – Ela está chateada comigo porque eu quero sair do futebol. – mente. Seu pai parece ter dificuldade em assimilar o que escutara.
                – Só por isso? – ele estranha.
                – Pois é, eu disse, não é nada. – Rafael torce para ter convencido ele.
                – Confesso que tampouco entendo porque você quer sair do futebol, você sempre pareceu gostar de jogar.
                – Sim, eu ainda gosto, mas é o último ano, quero me concentrar nos estudos. – segue mentindo.
                – Ir bem no futebol também lhe ajudará a entrar na faculdade. – o pai pondera.
                – Ajuda caso eu queira ir para área dos esportes, mas prefiro fazer algo que ajude na empresa. – o pai fica realmente surpreso e começa a rir de felicidade.
                – Eu não sabia que queria seguir com a empresa. – ele o abraça brevemente. – Sempre temi que no fim você somente levaria o nome e deixaria tudo nas mãos dos investidores. – diz o pai. – Eu fico tão feliz em saber que você quer liderar. – ao ver a felicidade do pai, Rafael não pode evitar de imaginar em como seria seu futuro frente a empresa, já se imagina fechando bons negócios, triplicando a renda... Mas assim que se vê de terno, como homem, seu sorriso se desmancha. – Assim que você entrar na faculdade, já lhe colocarei em estágio na empresa, algo leve, para que não lhe atrapalhe... Mas será ótimo para experiência. Afinal, assim que você formar, me aposentarei. – anuncia.
                – Mas... Pai...
                – Fique tranquilo, ficarei pelo menos um ano lhe orientando por trás das cortinas, tampouco sou louco, sei que não se sai pronto da faculdade, mas acredito em você, meu filho, meu menino, meu homem. – e dá um tapa nas costas de Rafael, não é um tapa forte, para machucar, mas sim uma forma de ostentar a masculinidade, o orgulho por ter um filho homem. Homem.


Continua


terça-feira, 20 de junho de 2017

12. As consequências de Lucas



                Na primeira noite Lucas havia dormido muito mal, os gritos, tanto da mulher quanto da sua irmã, ecoavam em sua mente, só após se entupir de soníferos que ele conseguiu dormir. O segundo dia tinha sido difícil, por ter tomado tanto remédio, ele custou para acordar e quando conseguiu já era tarde da noite. O terceiro dia foi bom, ele conseguiu acordar num horário normal, e o seu pai lhe chamou para acompanha-lo na empresa e foi nesse dia que ele decidira: Não iria deixar aquele acidente abala-lo. No mesmo instante ele se aprontou e saiu de casa, voltaria com seu negócio como traficante e desta vez procuraria a ajuda de alguém, e graças a algo que acontecera na empresa do pai, ele já sabia muito bem a quem chamaria. O quarto dia parecia promissor. Envolto em dinheiro, Lucas dormira como um bebê, sem remorso, pesadelo ou angustia, após uma noite com Rebecca no luxuoso prostibulo, ele havia faturado bem, mesmo contando com o valor pago a Rebecca, ele tinha uma margem de lucro favorável. Porém assim que chegou a mesa do café da manhã seu animo decaiu.
                Sua meia-irmã, Jade, estava um verdadeiro caco, era bem claro que ela não havia superado o que acontecera.
                O pai estava sentando a mesa, concentrado em seu jornal nem mesmo viu quando o filho se aproximou, a mãe dele tomava com seu café com cara de nojo, ela olhava para a filha postiça e fazia caretas de reprovação. Apesar de sempre ter cuidado da garota, ela nunca gostou muito da menina, e agora, que a mesma se deteriorava, o horror que a mulher sentia estava aumentado.
                – Bom dia, Lucas. – o pai o cumprimenta, assim que se permite distrair um pouco jornal. – acordou disposto hoje? Pois precisarei de você na empresa novamente. – anunciou.
                – Claro, pai. – Lucas sorri fraco, ele não queria ir, mas não poderia falar não, por mais que esteja faturando bem, ele só pretende se rebelar quando já for tão rico quanto o próprio pai.
                – Ótimo, sairemos daqui uma hora, então não demore muito nesse desjejum. – diz e volta a ler seu jornal.
                Enquanto Lucas começa a se servir, Jade se levanta sem tocar num pedaço da comida e sem dizer nada, ela se refugia em seu quarto.
                – O que aconteceu com essa garota? – pergunta o pai.
                – Não sei, já faz uns dias que ela está assim. – a mãe dá de ombros.
                – Você deveria saber. – pai reclama. – Você é a mãe.
                – Não. – a mãe contesta. – Você é o pai.
                – Eu trabalho, você fica em casa, você tem como única obrigação cuidar das crianças. – ele ignora o que a mulher diz.
                – Crianças? – Lucas pergunta rindo, querendo acabar com o clima de briga.
                – Crianças. – o pai confirma. – Você por acaso trabalha e conquista o seu próprio dinheiro?
                Sim.
                – Não. – mente.
                – Então, sim, você ainda é uma criança. – diz duro.
                – Como achar melhor. – Lucas diz divertido.
                – Se você continuar a agir assim, talvez eu repense sobre o seu cargo na empresa. – seu pai se estressa. – Não vou dar minha cadeira para alguém que não leva nada a sério.
                – Você nunca vai dar sua cadeira a ninguém. – Lucas diz monótono.
                – Eu... – o pai começa a gritar, mas a mãe o interrompe gritando ainda mais alto.
                – Pelo amor de Deus, será que não podemos ter um café da manhã em paz? – bufa. Os dois homens se entreolham assustados com a reação da mulher.
                – Acho que vou me arrumar. – Lucas diz, largando uma torrada comida pela metade, no prato a sua frente. – afinal, preciso mostrar seriedade para roubar a cadeira de meu pai. – ele diz e ri.
                Antes de sair Lucas pode jurar que escutou o pai rosnar.
               
                Antes que chegue a seu quarto, Lucas passa na frente do quarto de sua irmã, que deixou a porta entreaberta.
                Ele hesita, mas adentra ao local.
                O quarto está com as luzes apagas e com as cortinas fechadas, como elas tem blackout, o lugar está escuro, mesmo estando dia.
                – Ei, dá para você parar de agir assim? – ele tenta pedir da maneira mais delicada possível.
                A irmã está sentada em sua escrivaninha, lá o abajur está ligado e é o único ponto de luz no local.
                – Me desculpe se não consigo ser tão insensível. – ela rebate.
                – Não é ser insensível, nós fizemos o que pudemos, não tinha o que fazer naquele momento. – ele diz se aproximando mais ainda da irmã.
                – Não tinha? – ela pergunta, se levantando e encarando o irmão. – será que não tinha mesmo?
                – Não tinha. – ele garante.        
                Jade pega algo de cima da escrivaninha e entrega ao irmão. É um pedaço de jornal, nela apenas uma notícia e o título diz: Família sobrevive a gravíssimo acidente em rodovia.
                – Alguém os encontrou logo após a gente sair, e chamou o socorro. O carro não explodiu, o fogo se manteve apenas na parte dianteira do carro, e pegou apenas as pernas da mulher, que teve 89% das pernas queimadas, ela está em estado grave, mas estável, o bebê foi retirado com vida e está na UTI neonatal, os médicos dizem que a chance de sobrevivência é grande, o homem está internado, sem risco de vida, mas ele perdeu os movimentos da perna, os médicos acreditam que ele não perdeu os movimentos por causa da batida, mas sim por causa do atropelamento que ele sofreu, ao ir pedir ajuda na estrada. – Jade resume. Lucas olha para a irmã, boquiaberto, não podia acreditar que ela estava falando a verdade. – A mulher está sobre efeito de fortes medicações, por isso não pode dar depoimento, a polícia estava esperando o homem se acalmar, para fazer o retrato falado do atropelador que negou socorro, pois negar ajuda a vítima, após atropela-lo, é crime. –a irmã continua. – Isso foi há quatro dias, então eu acredito que o depoimento do homem já deve ter sido feito. – ela faz uma pausa. – Eu não estou agindo assim apenas pelo que aconteceu, irmãozinho, eu estou assim porque já sei o que vai acontecer em breve.
Continua

Capítulo postado, espero que tenham gostado.

Obg. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

11. As Consequências de Rebecca

Durante as férias
               

                Rebecca sorria enquanto reexperimentava as roupas adquiridas no dia anterior, ela nunca dera tanto valor a roupa nova como dava agora, pois hoje ela sabe o real valor que elas têm.
                 A hora de voltar à luxuosa boate, de clientes especiais, já estava chegando e ela se arrumou com ainda mais emprenho. O vestido é mais justo, o decote levemente mais acentuado, o perfume mais forte.
                Assim que fica pronta ela vai ao quarto do pai, ele está jogado em sua cama e totalmente desacordado, ela nem mesmo precisa chegar perto para sentir o cheiro de álcool que flui de seus poros.
                Rebecca tem que suspirar fundo umas duas vezes antes de conseguir sair dali sem chorar.
                Desta vez ela vai sozinha, de táxi. Sim, ela tinha que economizar, e se não fosse um lugar longe, ela até iria a pé, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, ela se sujeitaria a entrar num transporte público.
                Assim que chega à boate, ela termina de se preparar, colocando a mascara em sua face. Ela adentra no salão, e o local já esta cheio de clientes, Rebecca procura, mas não encontra a Lucas, ela fica sem saber o que fazer. A garota não tem nem mercadoria, nem a lista com os nomes dos clientes.
                Rebecca pega seu celular para entrar em contato com Lucas, mas antes que tivesse a oportunidade de discar o número completo, alguém a aborda.
                – Nada de celular dentro do salão. – a pessoa diz. Rebecca olha para a dona da voz e percebe o mal intendido, ela já havia visto aquela mulher falando com as garotas que trabalhavam ali. Lucas havia explicado que ela é a dona do estabelecimento, ele até tinha falado seu nome, mas ela não lembrava mais.
                A mulher é alta e bem magra, sua pele é negra e lisa, quando as luzes dos refletores tocam em sua pele, sua pele brilha de tão uniforme. Ela tem a cabeça raspada, e isso deixou Rebecca confusa no primeiro dia, pensava que a dona do lugar tinha alguma doença, mas Lucas logo esclareceu que não era por isso, a careca era por vontade da negra e não uma consequência de alguma doença.
                De perto, Rebecca podia ver os grandes cílios e a boca carnuda da dona do local, o brinco que ela usa é grande e de aparência pesada, mas é um brinco muito bonito. Seu corpo esguio é coberto por um vestido de alcinha, preto e longo, e um decote grande que quase chega a seu umbigo, completa seu visual.
                – Eu não trabalho aqui. – a garota diz.
                – Trabalha sim. – a mulher responde. – Junto a Lucas. – sorri e revela dentes extremamente brancos e grandes. – Não tente me enganar, eu sei de tudo.
                – Mas eu trabalho com o Lucas, não sou... – ela hesita em dizer a palavra que tem em mente.
                – Uma prostituta? – a mulher levanta uma das sobrancelhas. Rebecca engole o seco, no fundo ela tinha esperança que o local fosse apenas para bebedeiras e diversão, não esperava que aquelas meninas fossem realmente garotas de programa. – Eu sei muito bem o negocio que você e o Lucas fazem. Não gosto, mas aceito porque me traz mais clientela. – a mulher começa. – a questão é que quando era só ele, tudo estava bem, mas agora, com você...
                – O que tem eu? – Rebecca se assusta.
                – Estes homens pagam fortunas para terem a noite de estreia da ‘garota nova’ e, teoricamente, você é a ‘garota nova’. – a mulher explica.
                – Mas meu trabalho é outro. – Rebecca deixa claro.
                – Eu sei. – a mulher diz. – Mas eles. – diz apontando para os clientes no local. – eles não sabem. Muitos não se importariam em descobrir a verdade sobre você, mas outros não reagiriam da mesma forma. – a mulher se põe frente à Rebecca, obrigando a garota a olha-la. – Eu construí esse lugar do zero, uma lugar onde homens da classe alta pudessem realizar seus desejos mais obscuros sem temer, eu não vou deixar que você e aquele moleque do Lucas estraguem isso. – a maneira em que a mulher fala deixa Rebecca arrepiada.
                – O Lucas pode conversar com eles, só espere ele chegar. – Rebecca não sabe o que dizer.
                – Você confia muito no garoto e isso não é bom. – a mulher diz. – conheço pessoas como ele. Ele não se importa, Rebecca.
                – Mas ele me contratou. – Rebecca continua nervosa.
                – Eu sei. – a mulher sorri. – Mas, pelo jeito, esqueceu-se de lhe avisar que ele não vem todos os dias. – informa e solta uma gargalhada ao ver a cara de Rebecca. – Ele só vem quando precisa, portanto, você está aqui sozinha hoje. –diz.
                – Então é melhor eu ir. – ri nervosamente.
                A dona do estabelecimento não abre passagem para que a garota saia.
                – Se você está aqui é porque precisa do dinheiro. Correto? – a mulher pergunta e não recebe uma resposta. – Imaginei. – sorri amigável. – Muitas que estão aqui são como você, bem de vida, mas que estão falidas, ou simplesmente são rebeldes. Eu não pego qualquer uma na rua. – diz orgulhosa.
                – O que o Lucas falou com você? – Rebecca pergunta nervosa, querendo bater no rapaz que a trouxe neste lugar, na noite anterior, afinal, ele havia prometido que não contaria sobre a falência de seu pai a ninguém.
                – Ele não precisou falar nada. – a mulher diz. – Só de olhar sua pele, seu cabelo, suas roupas... Só de você andar com o Lucas, eu vejo que não és uma traficante pobre, você não está aqui porque precisa alimentar a família inteira, ou por má influencia, pois vive numa vizinhança perigosa. Você não está aqui porque não teve uma boa educação. Ou você está sem dinheiro, e decidiu pegar o caminho mais fácil, ou você quis colocar um pouco de adrenalina nesta vida vazia, mas cheia de luxo, que você leva.
                – Você parece saber demais para o meu gosto. – Rebecca se irrita.
                – Já você não parece nem saber meu nome. – observa. – Virginia. – estende a mão para, finalmente, cumprimenta-la. Rebecca não retribui. – A questão é, os lances em você já estão em 7 mil...
                – Espere. – Rebecca a interrompe. – Você está me leiloando?
                – Você que apareceu aqui, não é como se eu tivesse o controle.
                – Você mesmo disse que é a dona do lugar...
                – O sistema aqui é simples. – Virginia a interrompe. – Uma garota de mascara aparece, os lances são dados, quem der mais leva a garota para o quarto, é algo simultâneo, automático, uma regra da casa, se você não tivesse colocado esta maldita mascara, nem se achegado nos homem ontem, nada disso estaria acontecendo. Mulheres de cara limpa não são para dar lances, mulheres de máscara são. – Virginia diz firme e Rebecca novamente fica calada. – Você não foi para cama com nenhum cliente ontem, por isso seu valor aumentou consideravelmente, caso você seja virgem eu consigo triplicar o valor em um minuto. – a mulher sugere.
                – Eu... Eu não sou... – Rebecca responde sem nem saber o porquê. Virginia faz uma careta.
                – Nem sei por que pergunto, vocês nunca são... – lamenta.
                – Eu sou menor de idade. – Rebecca se surpreende ao lembrar-se disso, sua menor idade nunca a impediu de fazer nada antes. Ainda faltavam três semanas para seu aniversário, onde ela se tornaria, perante a lei, uma adulta.
                – Isso sem duvidas duplica seu valor. – Virginia diz como se não escutasse o absurdo que acabara de dizer.
                – Isso é... – Rebeca está chocada com tudo isso.
                – Nojento e ilegal. – Virginia confessa. – Mas eu não disse que esses homens são santos, eles amam uma virgem e adoram uma novinha. É repugnante, mas é lucrativo. – diz. –Eu não vou lhe obrigar a nada, Rebecca, mas quero que saiba, a ‘garota nova’ sempre recebe o valor integral e em dinheiro vivo, se você aceitar eu ainda consigo aumentar seu valor. – Rebecca não podia acreditar que realmente estava pensando em aceitar. – Beba um pouco, disfarce o nojo, faça barulho, no fim, diga que ele foi o melhor de sua vida e vá embora para casa com muito dinheiro na bolsa. – aconselha e sorri.  – Eu tenho o seu sim?

Continua


Novo capítulo postado, espero que gostem.

domingo, 4 de junho de 2017

10. As consequências de Rafael



                O pronto socorro está movimentado, o bairro de classe baixa é perigoso e isso reflete nos casos de urgência que surgem a cada instante, ainda assim, o movimento intenso não parece afetar a Rafael, que, sentado no canto da sala de espera, já não se importa com os olhares que recebe, afinal, ele tirou a peruca e sua maquiagem está borrada, sua aparência causa estranhamento. Linda está sentada a seu lado e se mantem calada, não sabe o que dizer, não sabe como se desculpar... A mulher transexual resolveu deixar sua mãe em casa, a pobre idosa estava desesperada demais, leva-la ao pronto socorro só deixaria a Rafael ainda mais apreensivo.
                – Vocês são os parentes da Anna Barcellos? – o médico pergunta e Rafael salta da cadeira.
                – Sim, eu sou o irmão dela. – ele diz e o médico o olha de maneira estranha. – Ela está bem?  - Rafael pergunta tentando voltar à atenção do médico ao assunto que realmente interessava.
                – Ela já está acordada e consciente, não apresentou nenhuma alteração nem na tomografia nem no Raio-x, ela tem um grande corte na parte de trás da cabeça, tivemos de dar cinco pontos, mas no mais não parece ter nada de errado. – Rafael suspira aliviado. – Ainda assim, não vamos libera-la ainda, queremos mantê-la em observação, só para garantir que está realmente tudo bem. – o medico completa.
                – Tudo bem. – Rafael concorda enquanto ainda assimila tudo o que acabara de escutar. – Posso vê-la? – pergunta.
                – Sim, ela está sob o efeito de um remédio para dor, por isso está um pouco mais letárgica, mas não se preocupe, ela está bem. – o médico avisa e Rafael assente. – Você também quer entrar? – o médico pergunta a Linda, que a todo o momento esteve ao lado de Rafael, mesmo sem se manifestar.
                – Acho melhor ele ir sozinho. – Linda responde, querendo respeitar o espaço do amigo, que até o momento se apresentou arredio a sua presença.
                – Eu quero que você vá. – ele diz de maneira bruta, sem olhar para a amiga.
                Ambos entram no quarto em que a menina está internada, ela divide o mesmo ambiente com outras três pacientes, uma, que parece jovem, da idade de Rafael, está bem machucada e ele é obrigado a virar o rosto para não ver a profundidade dos ferimentos. Já a outra mulher é bem mais velha, recebe soro na veia e faz uma careta ao ver as amigas entrarem no quarto.
                – Ei pequenina. – a menina sorri ao vê-lo. – Você está bem? – ele pergunta carinhosamente. Confusa a menina o olha, ela nunca tinha visto o irmão daquela maneira. – Sou eu. – ele toca em sua mãozinha. – Seu irmão. – a menina volta a sorrir, parece reconhecê-lo agora. Linda se mantem dois passos atrás, observa a menina de longe, e agradece a Deus por ver que a ela está sã e salva. – E agora, o que eu faço? – Rafael se dirige a amiga. – Como que eu vou esconder isso? – ele diz pegando a cabeça da irmã e mostrando onde ficaram os pontos. – O cabelo dela já é ralo, ainda rasparam essa parte, como que eu escondo isso? – Rafael começa a se alterar.
                – Não sei. – Linda se mantem calma. – Mas podemos pensar. – ela começa a tentar encontrar ideias em sua mente, instantaneamente.
                – Eu nunca deveria tê-la deixado com sua mãe. – ele lamenta. – Ela é velha, é claro que ela iria dormir com um livro na mão.
                – Foi um acidente. – Linda parte em defesa da mãe.
                – Isso não teria acontecido se eu tivesse ficado em casa, quieto, apenas brincando com ela. – Rafael responde alterado.
                – Então a culpa é minha? – Linda pergunta, se segurando para não se descontrolar.
                – Você que insistiu. – Rafael responde seco.
                – Claro. – Linda morde os lábios. – Talvez você devesse falar a verdade, começar com isso seria uma boa, evitaria que coisas assim acontecessem. – ela diz e Rafael fica vermelho de raiva.
                – A primeira coisa que você me disse quando me conheceu é que todos nós temos nosso tempo, que eu não deveria me cobrar e muito menos apressar-me. Você teve seu tempo, você teve seu apoio, eu não tive isso, eu não estou tendo isso! – ele já se alterou completamente.
                – Eu tive meu tempo? Eu fui obrigada a me assumir, fui obrigada por eu precisava que alguém me apoiasse, porque eu estava sofrendo, pessoas riam de mim, e falavam de mim, eu apanhava... Porque você acha que eu vivo nesse fim de mundo? Sabe essa velha que você tanto culpa? Ela lutou contra tudo e todos para me defender, sim, eu tive o suporte dela, mas ela foi abandonada pelo marido, virou inimiga da família, perdeu a maior parte dos amigos dela, passou fome só para que fosse quem eu sou. Eu já apanhei demais nessa vida, Rafael, e eu só queria te ajudar. Você pensa que está sofrendo? Você acha que eu tenho a vida perfeita? Que tudo foi perfeito para mim? Não existe vida perfeita para pessoas como nós. – Linda não consegue segurar.
                – Por favor. – uma enfermeira os interrompe. – Aqui não é lugar para discussões. – ela diz séria.
                – Eu já estava indo. – Linda responde antes que Rafael tenha a oportunidade de falar algo. – Eu realmente espero que seja melhor para você do que foi para mim, Rafael. – ela diz agora mais calma. – Melhoras para sua irmã. – deseja e parte junto à enfermeira.
               
                A menina recebe alta ainda durante a manhã do dia anterior. Rafael a leva para casa e passa o dia tentando encontrar os melhores penteados para esconder a linha dos pontos na cabeça da irmã. A pequena reclama algumas vezes e isso o faz se desesperar, ele teria apenas um dia para inventar uma desculpa cabível.
                Depois de muito tentar, Rafael consegue amarrar o cabelo da irmã em um coque torto, mas que deixa um tufo denso de cabelo bem encima dos pontos, que acabam sendo escondidos. Ele sabia que esse penteado não duraria para sempre, mas tinha esperança que isso o desse mais tempo para pensar numa justificativa válida.
                Aquele seria o domingo mais apreensivo da vida de Rafael, após receber a ligação que os pais já estavam retornando para casa, ele deixou que a apreensão tomasse conta de si.
                Tomou repetidos banhos, para ter certeza que não havia mais nenhum vestígio de maquiagem ou brilho em sua pele, certificou-se de que as vestes e a peruca que Linda o colocara estavam bem escondidas, e fez e refez o coque na cabeça da irmã, até que a mesma já se irritasse e corresse do irmão, sempre que o via com a escova na mão.
                Quando os pais de Rafael chegaram, já era tarde da noite, ambos estavam cansados da viagem. O pai pouco falou, apenas cumprimentou os filhos, perguntou ao garoto se tudo estava bem e foi tomar um banho para se deitar, já a mãe, após fazer as mesmas perguntas que o pai fizera, andou pela casa a procura de alguma bagunça, talvez ela suspeitasse que o filho tivesse feito alguma festa na ausência dela, no fundo ele acredita que ela teria gostado, caso isso tivesse acontecido, mas como, obviamente, não encontrou nada, pediu ao menino que pedisse uma pizza, caso este estivesse com fome e foi dar atenção a filha menor, que já estava sonolenta a essa altura.
                Rafael dormira aliviado durante aquela noite, mas ao acordar deu de cara com a mãe bem ao lado de sua cama.
                No susto o garoto deu um pulo, revelando seus trajes de dormir, que consistiam em uma cueca samba-canção azul, e uma meia, branca, nos pés.
                Séria, sem nenhum sorriso em seu rosto e com os braços cruzados, a mãe perguntou:
                – Você pode me dizer o que é aquilo na cabeça da sua irmã?

Continua


Olá a todos, mais um capítulo postado, espero que gostem.