terça-feira, 20 de junho de 2017

12. As consequências de Lucas



                Na primeira noite, Lucas havia dormido muito mal, os gritos, tanto da mulher quanto da sua irmã, ecoavam em sua mente, só após se entupir de soníferos que ele conseguiu dormir. O segundo dia tinha sido difícil, por ter tomado tanto remédio, ele custou para acordar e quando conseguiu já era tarde da noite. O terceiro dia foi bom, ele conseguiu acordar num horário normal, e o seu pai lhe chamou para acompanha-lo na empresa e foi nesse dia que ele decidira: Não iria deixar aquele acidente abala-lo. No mesmo instante ele se aprontou e saiu de casa, voltaria com seu negócio como traficante e desta vez procuraria a ajuda de alguém, e graças a algo que acontecera na empresa do pai, ele já sabia muito bem a quem chamaria. O quarto dia parecia promissor. Envolto em dinheiro, Lucas dormira como um bebê, sem remorso, pesadelo ou angustia, após uma noite com Rebecca no luxuoso prostibulo, ele havia faturado bem, mesmo contando com o valor pago a Rebecca, ele tinha uma margem de lucro favorável. Porém assim que chegou a mesa do café da manhã seu animo decaiu.
                Sua meia-irmã, Jade, estava um verdadeiro caco, era bem claro que ela não havia superado o que acontecera.
                O pai estava sentando a mesa, concentrado em seu jornal nem mesmo viu quando o filho se aproximou, a mãe dele tomava com seu café com cara de nojo, ela olhava para a filha postiça e fazia caretas de reprovação. Apesar de sempre ter cuidado da garota, ela nunca gostou muito da menina, e agora, que a mesma se deteriorava, o horror que a mulher sentia estava aumentado.
                – Bom dia, Lucas. – o pai o cumprimenta, assim que se permite distrair um pouco jornal. – acordou disposto hoje? Pois precisarei de você na empresa novamente. – anunciou.
                – Claro, pai. – Lucas sorri fraco, ele não queria ir, mas não poderia falar não, por mais que esteja faturando bem, ele só pretende se rebelar quando já for tão rico quanto o próprio pai.
                – Ótimo, sairemos daqui uma hora, então não demore muito nesse desjejum. – diz e volta a ler seu jornal.
                Enquanto Lucas começa a se servir, Jade se levanta sem tocar num pedaço da comida e sem dizer nada, ela se refugia em seu quarto.
                – O que aconteceu com essa garota? – pergunta o pai.
                – Não sei, já faz uns dias que ela está assim. – a mãe dá de ombros.
                – Você deveria saber. – pai reclama. – Você é a mãe.
                – Não. – a mãe contesta. – Você é o pai.
                – Eu trabalho, você fica em casa, você tem como única obrigação cuidar das crianças. – ele ignora o que a mulher diz.
                – Crianças? – Lucas pergunta rindo, querendo acabar com o clima de briga.
                – Crianças. – o pai confirma. – Você por acaso trabalha e conquista o seu próprio dinheiro?
                Sim.
                – Não. – mente.
                – Então, sim, você ainda é uma criança. – diz duro.
                – Como achar melhor. – Lucas diz divertido.
                – Se você continuar a agir assim, talvez eu repense sobre o seu cargo na empresa. – seu pai se estressa. – Não vou dar minha cadeira para alguém que não leva nada a sério.
                – Você nunca vai dar sua cadeira a ninguém. – Lucas diz monótono.
                – Eu... – o pai começa a gritar, mas a mãe o interrompe gritando ainda mais alto.
                – Pelo amor de Deus, será que não podemos ter um café da manhã em paz? – bufa. Os dois homens se entreolham assustados com a reação da mulher.
                – Acho que vou me arrumar. – Lucas diz, largando uma torrada comida pela metade, no prato a sua frente. – afinal, preciso mostrar seriedade para roubar a cadeira de meu pai. – ele diz e ri.
                Antes de sair Lucas pode jurar que escutou o pai rosnar.
               
                Antes que chegue a seu quarto, Lucas passa na frente do quarto de sua irmã, que deixou a porta entreaberta.
                Ele hesita, mas adentra ao local.
                O quarto está com as luzes apagas e com as cortinas fechadas, como elas tem blackout, o lugar está escuro, mesmo estando dia.
                – Ei, dá para você parar de agir assim? – ele tenta pedir da maneira mais delicada possível.
                A irmã está sentada em sua escrivaninha, lá o abajur está ligado e é o único ponto de luz no local.
                – Me desculpe se não consigo ser tão insensível. – ela rebate.
                – Não é ser insensível, nós fizemos o que pudemos, não tinha o que fazer naquele momento. – ele diz se aproximando mais ainda da irmã.
                – Não tinha? – ela pergunta, se levantando e encarando o irmão. – será que não tinha mesmo?
                – Não tinha. – ele garante.        
                Jade pega algo de cima da escrivaninha e entrega ao irmão. É um pedaço de jornal, nela apenas uma notícia e o título diz: Família sobrevive a gravíssimo acidente em rodovia.
                – Alguém os encontrou logo após a gente sair, e chamou o socorro. O carro não explodiu, o fogo se manteve apenas na parte dianteira do carro, e pegou apenas as pernas da mulher, que teve 89% das pernas queimadas, ela está em estado grave, mas estável, o bebê foi retirado com vida e está na UTI neonatal, os médicos dizem que a chance de sobrevivência é grande, o homem está internado, sem risco de vida, mas ele perdeu os movimentos da perna, os médicos acreditam que ele não perdeu os movimentos por causa da batida, mas sim por causa do atropelamento que ele sofreu, ao ir pedir ajuda na estrada. – Jade resume. Lucas olha para a irmã, boquiaberto, não podia acreditar que ela estava falando a verdade. – A mulher está sobre efeito de fortes medicações, por isso não pode dar depoimento, a polícia estava esperando o homem se acalmar, para fazer o retrato falado do atropelador que negou socorro, pois negar ajuda a vítima, após atropela-lo, é crime. –a irmã continua. – Isso foi há quatro dias, então eu acredito que o depoimento do homem já deve ter sido feito. – ela faz uma pausa. – Eu não estou agindo assim apenas pelo que aconteceu, irmãozinho, eu estou assim porque já sei o que vai acontecer em breve.
Continua

Capítulo postado, espero que tenham gostado.

Obg. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

11. As Consequências de Rebecca


               
                Rebecca sorria enquanto reexperimentava as roupas adquiridas no dia anterior, ela nunca dera tanto valor a roupa nova como dava agora, pois hoje ela sabe o real valor que elas têm.
                 A hora de voltar à luxuosa boate, de clientes especiais, já estava chegando e ela se arrumou com ainda mais emprenho. O vestido é mais justo, o decote levemente mais acentuado, o perfume mais forte.
                Assim que fica pronta ela vai ao quarto do pai, ele está jogado em sua cama e totalmente desacordado, ela nem mesmo precisa chegar perto para sentir o cheiro de álcool que flui de seus poros.
                Rebecca tem que suspirar fundo umas duas vezes, antes de conseguir sair dali sem chorar.
                Desta vez ela vai sozinha, de táxi. Sim, ela tinha que economizar, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, ela se sujeitaria a entrar num transporte publico.
                Assim que chega a boate ela termina de se preparar, colocando a mascara em sua face. Ela adentra no salão, e o local já esta cheio de clientes, Rebecca procura, mas não encontra a Lucas, ela fica sem saber o que fazer. A garota não tem nem mercadoria, nem a lista com os nomes dos clientes.
                Rebecca pega seu celular para entrar em contato com Lucas, mas antes que tivesse a oportunidade de discar o número completo, alguém a aborda.
                – Nada de celular dentro do salão. – a pessoa diz. Rebecca olha para a dona da voz e percebe o mal intendido, ela já havia visto aquela mulher falando com as garotas que trabalhavam ali. Lucas havia explicado que ela é a dona do estabelecimento, ele até tinha falado seu nome, mas ela não lembrava mais.
                A mulher é alta e bem magra, sua pele é negra e lisa, quando as luzes dos refletores tocam em sua pele, sua pele brilha de tão uniforme. Ela tem a cabeça raspada, e isso deixou Rebecca confusa no primeiro dia, pensava que a dona do lugar tinha alguma doença, mas Lucas logo esclareceu que não era por isso, a careca era por vontade da negra e não uma consequência de alguma doença.
                De perto Rebecca podia ver os grandes cílios e a boca carnuda da dona do local, o brinco que ela usa é grande e de aparência pesada, mas é um brinco muito bonito. Seu corpo esguio é coberto por um vestido de alcinha, preto e longo, e um decote grande que quase chega a seu umbigo, completa seu visual.
                – Eu não trabalho aqui. – a garota diz.
                – Trabalha sim. – a mulher responde. – Junto a Lucas. – sorri e revela dentes extremamente brancos e grandes. – Não tente me enganar, eu sei de tudo.
                – Mas eu trabalho com o Lucas, não sou... – ela hesita em dizer a palavra que tem em mente.
                – Uma prostituta? – a mulher levanta uma das sobrancelhas. Rebecca engole o seco, no fundo ela tinha esperança que o local fosse apenas para bebedeiras e diversão, não esperava que aquelas meninas fossem realmente garotas de programa. – Eu sei muito bem o negocio que você e o Lucas fazem. Não gosto, mas aceito porque me trazem mais clientela. – a mulher começa. – a questão é que quando era só ele, tudo estava bem, mas agora, com você...
                – O que tem eu? – Rebecca se assusta.
                – Estes homens pagam fortunas para terem a noite de estreia da ‘garota nova’ e, teoricamente, você é a ‘garota nova’. – a mulher explica.
                – Mas meu trabalho é outro. – Rebecca deixa claro.
                – Eu sei. – a mulher diz. – Mas eles. – diz apontando para os clientes no loca. – eles não sabem. Muitos não se importariam em descobrir a verdade sobre você, mas outros não reagiriam da mesma forma. – a mulher se põe frente à Rebecca, obrigando a garota a olha-la. – Eu construí esse lugar do zero, uma lugar onde homens da classe alta pudessem realizar seus desejos mais obscuros sem temer, eu não vou deixar que você e aquele moleque do Lucas estraguem isso. – a maneira em que a mulher fala deixa Rebecca arrepiada.
                – O Lucas pode conversar com eles, só espere ele chegar. – Rebecca não sabe o que dizer.
                – Você confia muito no garoto e isso não é bom. – a mulher diz. – conheço pessoas como ele. Ele não se importa, Rebecca.
                – Mas ele me contratou. – Rebecca continua nervosa.
                – Eu sei. – a mulher sorri. – Mas, pelo jeito, esqueceu-se de lhe avisar que ele não vem todos os dias. – informa e solta uma gargalhada ao ver a cara de Rebecca. – Ele só vem quando precisa, portanto, você está aqui sozinha hoje. –diz.
                – Então é melhor eu ir. – ri nervosamente.
                A dona do estabelecimento não abre passagem para que a garota saia.
                – Se você está aqui é porque precisa do dinheiro. Correto? – a mulher pergunta e não recebe uma resposta. – Imaginei. – sorri amigável. – Muitas que estão aqui são como você, bem de vida, mas que estão falidas, ou simplesmente são rebeldes. Eu não pego qualquer uma na rua. – diz orgulhosa.
                – O que o Lucas falou com você? – Rebecca pergunta nervosa, querendo bater no rapaz que a trouxe neste lugar, na noite anterior, afinal, ele havia prometido que não contaria sobre a falência de seu pai a ninguém.
                – Ele não precisou falar nada. – a mulher diz. – Só de olhar sua pele, seu cabelo, suas roupas... Só de você andar com o Lucas, eu vejo que não és uma traficante pobre, você não está aqui porque precisa alimentar a família inteira, ou por má influencia, pois vive numa vizinhança perigosa. Você não está aqui porque não teve uma boa educação. Ou você está sem dinheiro, e decidiu pegar o caminho mais fácil, ou você quis colocar um pouco de adrenalina nesta vida vazia, mas cheia de luxo, que você leva.
                – Você parece saber demais para o meu gosto. – Rebecca se irrita.
                – Já você não parece nem saber meu nome. – observa. – Virginia. – estende a mão para, finalmente, cumprimenta-la. Rebecca não retribui. – A questão é, os lances em você já estão em 9 mil...
                – Espere. – Rebecca a interrompe. – Você está me leiloando?
                – Você que apareceu aqui, não é como se eu tivesse o controle.
                – Você mesmo disse que é a dona do lugar...
                – O sistema aqui é simples. – Virginia a interrompe. – Uma garota de mascara aparece, os lances são dados, quem der mais leva a garota para o quarto, é algo simultâneo, automático, uma regra da casa, se você não tivesse colocado esta maldita mascara, nem se achegado nos homem ontem, nada disso estaria acontecendo. Mulheres de cara limpa não são para dar lances, mulheres de máscara são. – Virginia diz firme e Rebecca novamente fica calada. – Você não foi para cama com nenhum cliente ontem, por isso seu valor aumentou consideravelmente, caso você seja virgem eu consigo triplicar o valor em um minuto. – a mulher sugere.
                – Eu... Eu não sou... – Rebecca responde sem nem saber o porquê. Virginia faz uma careta.
                – Nem sei por que pergunto, vocês nunca são... – lamenta.
                – Eu sou menor de idade. – Rebecca se surpreende ao lembrar-se disso, sua menor idade nunca a impediu de fazer nada antes. Ainda faltavam três semanas para seu aniversário, onde ela se tornaria, perante a lei, uma adulta.
                – Isso sem duvidas duplica seu valor. – Virginia diz como se não escutasse o absurdo que acabara de dizer.
                – Isso é... – Rebeca está chocada com tudo isso.
                – Nojento e ilegal. – Virginia confessa. – Mas eu não disse que esses homens são santos, eles amam uma virgem e adoram uma novinha. É repugnante, mas é lucrativo. – diz. –Eu não vou lhe obrigar a nada, Rebecca, mas quero que saiba, a ‘garota nova’ sempre recebe o valor integral e em dinheiro vivo, se você aceitar eu ainda consigo aumentar seu valor. – Rebecca não podia acreditar que realmente estava pensando em aceitar. – Beba um pouco, disfarce o nojo, faça barulho, no fim, diga que ele foi o melhor de sua vida e vá embora para casa com muito dinheiro na bolsa. – sorri.  – Eu tenho o seu sim?

Continua


Novo capítulo postado, espero que gostem.

domingo, 4 de junho de 2017

10. As consequências de Rafael



                O pronto socorro está movimentado, o bairro de classe baixa é perigoso e isso reflete nos casos de urgência que surgem a cada instante, ainda assim, o movimento intenso não parece afetar a Rafael, que, sentado no canto da sala de espera, já não se importa com os olhares que recebe, afinal, ele tirou a peruca e sua maquiagem está borrada, sua aparência causa estranhamento. Linda está sentada a seu lado e se mantem calada, não sabe o que dizer, não sabe como se desculpar... A mulher transexual resolveu deixar sua mãe em casa, a pobre idosa estava desesperada demais, leva-la ao pronto socorro só deixaria a Rafael ainda mais apreensivo.
                – Vocês são os parentes da Anna Barcellos? – o médico pergunta e Rafael salta da cadeira.
                – Sim, eu sou o irmão dela. – ele diz e o médico o olha de maneira estranha. – Ela está bem?  - Rafael pergunta tentando voltar à atenção do médico ao assunto que realmente interessava.
                – Ela já está acordada e consciente, não apresentou nenhuma alteração nem na tomografia nem no Raio-x, ela tem um grande corte na parte de trás da cabeça, tivemos de dar cinco pontos, mas no mais não parece ter nada de errado. – Rafael suspira aliviado. – Ainda assim não vamos libera-la ainda, queremos mantê-la em observação, só para garantir que está realmente tudo bem. – o medico completa.
                – Tudo bem. – Rafael concorda, enquanto ainda assimila tudo o que acabara de escutar. – Posso vê-la? – pergunta.
                – Sim, ela está sobre o efeito de um remédio para dor, por isso está um pouco mais letárgica, mas não se preocupe, ela está bem. – o médico avisa e Rafael assente. – Você também quer entrar? – o médico pergunta a Linda, que a todo o momento esteve ao lado de Rafael, mesmo sem se manifestar.
                – Acho melhor ele ir sozinho. – Linda responde, querendo respeitar o espaço do amigo, que até o momento se apresentou arredio a sua presença.
                – Eu quero que você vá. – ele diz de maneira bruta, sem olhar para a amiga.
                Ambos entram no quarto em que a menina está internada, ela divide o mesmo ambiente com outras três pacientes, uma, que parece jovem, da idade de Rafael, está bem machucada e ele é obrigado a virar o rosto para não ver a profundidade dos ferimentos. Já a outra mulher é bem mais velha, recebe soro na veia e faz uma careta ao ver as amigas entrarem no quarto.
                – Ei pequenina. – a menina sorri ao vê-lo. – Você está bem? – ele pergunta carinhosamente. Confusa a menina o olha, ela nunca tinha visto o irmão daquela maneira. – Sou eu. – ele toca em sua mãozinha. – Seu irmão. – a menina volta a sorrir, parece reconhecê-lo agora. Linda se mantem dois passos atrás, observa a menina de longe, e agradece a Deus por ver que a ela está sã e salva. – E agora, o que eu faço? – Rafael se dirige a amiga. – Como que eu vou esconder isso? – ele diz pegando a cabeça da irmã e mostrando onde ficaram os pontos. – O cabelo dela já é ralo, ainda rasparam essa parte, como que eu escondo isso? – Rafael começa a se alterar.
                – Não sei. – Linda se mantem calma. – Mas podemos pensar. – ela começa a tentar encontrar ideias em sua mente instantaneamente.
                – Eu nunca deveria tê-la deixado com sua mãe. – ele lamenta. – Ela é velha, é claro que ela iria dormir com um livro na mão.
                – Foi um acidente. – Linda parte em defesa da mãe.
                – Isso não teria acontecido se eu tivesse ficado em casa, quieto, apenas brincando com ela. – Rafael responde alterado.
                – Então a culpa é minha? – Linda pergunta, se segurando para não se descontrolar.
                – Você que insistiu. – Rafael responde seco.
                – Claro. – Linda morde os lábios. – Talvez você devesse falar a verdade, começar com isso seria uma boa, evitaria que coisas assim acontecessem. – ela diz e Rafael fica vermelho de raiva.
                – A primeira coisa que você me disse quando me conheceu é que todos nós temos nosso tempo, que eu não deveria me cobrar e muito menos apressar-me. Você teve seu tempo, você teve seu apoio, eu não tive isso, eu não estou tendo isso! – ele já se alterou completamente.
                – Eu tive meu tempo? Eu fui obrigada a me assumir, fui obrigada por eu precisava que alguém me apoiasse, porque eu estava sofrendo, pessoas riam de mim, e falavam de mim, eu apanhava... Porque você acha que eu vivo nesse fim de mundo? Sabe essa velha que você tanto culpa? Ela lutou contra tudo e todos para me defender, sim eu tive o suporte dela, mas ela foi abandonada pelo marido, virou inimiga da família, perdeu a maior parte dos amigos dela, passou fome só para que fosse quem eu sou. Eu já apanhei demais nessa vida, Rafael, e eu só queria te ajudar. Você pensa que está sofrendo? Você acha que eu tenho a vida perfeita? Que tudo foi perfeito para mim? Não existe vida perfeita para pessoas como nós. – Linda não consegue segurar.
                – Por favor. – uma enfermeira os interrompe. – Aqui não é lugar para discussões. – ela diz séria.
                – Eu já estava indo. – Linda responde antes que Rafael tenha a oportunidade de falar algo. – Eu realmente espero que seja melhor para você do que foi para mim, Rafael. – ela diz agora mais calma. – Melhoras para sua irmã. – deseja e parte junto à enfermeira.
               
                A menina recebe alta ainda durante a manhã do dia anterior. Rafael a leva para casa e passa o dia tentando encontrar os melhores penteados para esconder a linha dos pontos na cabeça da irmã. A pequena reclama algumas vezes e isso o faz se desesperar, ele teria apenas um dia para inventar uma desculpa cabível.
                Depois de muito tentar, Rafael consegue amarrar o cabelo da irmã em um coque torto, mas que deixa um tufo denso de cabelo bem encima dos pontos, que acabam sendo escondidos. Ele sabia que esse penteado não duraria para sempre, mas tinha esperança que isso o desse mais tempo para pensar numa justificativa valida.
                Aquele seria o domingo mais apreensivo da vida de Rafael, após receber a ligação que os pais já estavam retornando para casa, ele deixou que a apreensão tomasse conta de si.
                Tomou repetidos banhos, para ter certeza que não havia mais nenhum vestígio de maquiagem ou brilho em sua pele, certificou-se de que as vestes e a peruca que Linda o colocara estavam bem escondidas, e fez e refez o coque na cabeça da irmã, até que a mesma já se irritasse e corresse do irmão, sempre que o via com a escova na mão.
                Quando os pais de Rafael chegaram, já era tarde da noite, ambos estavam cansados da viagem. O pai pouco falou, apenas cumprimentou os filhos, perguntou ao garoto se tudo estava bem e foi tomar um banho para se deitar, já a mãe, após fazer as mesmas perguntas que o pai fizera, andou pela casa a procura de alguma bagunça, talvez ela suspeitasse que o filho tivesse feito alguma festa na ausência dela, no fundo ele acredita que ela teria gostado, caso isso tivesse acontecido, mas como, obviamente, não encontrou nada, pediu ao menino que pedisse uma pizza, caso este estivesse com fome e foi dar atenção a filha menor, que já estava sonolenta a essa altura.
                Rafael dormira aliviado durante aquela noite, mas ao acordar deu de cara com a mãe bem ao lado de sua cama.
                No susto o garoto deu um pulo, revelando seus trajes de dormir, que consistiam em uma cueca samba-canção azul, e uma meia, branca, nos pés.
                Séria, sem nenhum sorriso em seu rosto e com os braços cruzados, a mãe perguntou:
                – Você pode me dizer o que é aquilo na cabeça da sua irmã?

Continua


Olá a todos, mais um capítulo postado, espero que gostem.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

9. O Segredo de Rafael (Parte 2)

                Rafael joga no time de futebol da escola, o time é bom e ele é um ótimo jogador. Ele já está acostumado em vencer campeonatos, se louvado como o melhor jogador do time, ter seu nome enaltecido nas arquibancadas, quando ele joga bem. Ele está acostumado a levantar troféus e medalhas, e tudo isso é ótimo, mas ele nunca se sentiu tão radiante como agora, que se olha no espelho da penteadeira e vê o que realmente é. Uma mulher.
                – Deveríamos sair. – Linda sugere. – Para estrear seu look num lugar bem legal, para todo mundo verem.
                – Não sei se é uma boa ideia.
                – Claro que vamos a um lugar legal, que tenha outras como nós. – Linda sente o medo de Rafael. – Nada de boate hétero. – ela revira os olhos.
                Rafael se sente tentado a aceitar, mas recua novamente.
                – Talvez outro dia. – suspira. – Tenho que cuidar de minha irmã.
                – Ela pode ficar com minha mãe. – Linda insiste. – Vamos lá... – Rafael continua indeciso. – Sério que você me deu esse trabalho todo por nada?
                – Foi você que deu a ideia. – Rafael se defende.
                – Ainda assim, você deu trabalho. – Linda contrapõe. – Olhe esse nariz. – Linda força o queixo de Rafael, para que ele se olhe mais de perto no espelho. – ele está três vezes menor. – ela o solta. –Não mesmo garota. Você vai fazer jus ao meu trabalho.
                – Eu nem trouxe dinheiro para algo assim. Boates são caras.
                – Você está me chamando de mão fechada é? Eu posso muito bem pagar para você hoje, e você fica me devendo uma. – ela diz.
                – Não sei...
                – Eu me cansei de escutar você falando que só não se transformava ou andava comigo porque seus pais estavam por perto, mas agora eu lhe pergunto: o que te impede? – Linda o questiona. – Eles não estão aqui para lhe impedir, se for só medo, diga, eu posso lhe ajudar, eu quero lhe ajudar, mas eu não posso fazer nada se você não falar o que realmente te aflige.
                – As pessoas vão perceber...
                – Pare com isso. – Linda o interrompe antes que ele possa terminar a frase. – Olhe para mim, eu já estou quase totalmente transformada, falta muito pouco para que minha transição esteja completa, e eu ainda recebo olhares, e é bem provável que eu receberei olhares minha vida inteira. Se você quer ser o que é, é preciso que você encare isso de frente.  – Rafael sente seu coração acelerar, sua cabeça está confusa, queria que fosse diferente, queria não sentir o que sente, mas ao mesmo quer sentir o que sente, quer ser quem é, mas quer que se assumir, queria se mostrar como é para os outros, e queria que isso não o deixasse com tanto medo.
                – Vamos ficar pouco. – ele diz. – E se eu me sentir incomodado...
                – Incomodada. – Linda o corrige e ele ri. – É melhor começar ir se acostumando.
                – Incomodada. – Rafael corrige com um sorriso na face. – Voltaremos no mesmo instante. – termina.
                – Prometo. – Linda sorri. – Pronta para se divertir?
               
                Linda e Rafael deixam Anna sobre os cuidados da velha mãe, que assim que soube de sua tarefa, largou sua TV e foi ao quarto da filha, com um livro na mão, lá iria se dedicar apenas à pequenina.

                Novamente as duas se encontram no metrô, Linda percebe o medo da amiga e segura sua mão durante a maior parte do percurso.
                Ambos desembarcam a apenas um quarteirão da rua mais badalada de toda a cidade, bares e boates se espremem de ambos os lados da rua, chamando a atenção de jovens de diferentes tribos.
                A rua está movimentada, há barulho vindo de várias partes.
                – Eu conheço aqueles dois. – Rafael aponta a um casal que adentra em uma boate.
                – Aquele casalzinho ali? – Linda zomba e Rafael ri.
                – Eles não são um casal. – Rafael estranha.
                – Agora são. – Linda dá de ombros. – Muito pode ocorrer durante as férias. – joga uma indireta que Rafael, distraído, não pega.
                – Não. – Rafael implica. – Eles não podem namorar, ela namora o irmão dele. – ele se sente irritado.
                – Uau, babado. – Linda ri. – Sério que isso vai lhe desanimar? – ela percebe que ver o casal traidor desanimou a Rafael.
                – O namorado dela é meu amigo. – ele se justifica.
                – Então diga a ele o que você viu, quando tiver a oportunidade, só não estrague o avanço que você acabou de fazer. – Linda pede.
                – Tudo bem. – Rafael suspira, após convencido.
                A boate em que entram está lotada, plumas voam para todo lado, música alta e luzes bailam pelo ar. A pista de dança está cheia, então as amigas se refugiam no bar.
                Não bebem muitos drinques, pois são interrompidas por uma ligação inesperada.
                Ambas correm para fora da boate e, ao invés de pegarem o metrô, voltam à casa de Linda de táxi.
                O valor cobrado pelo taxista é alto, e Linda gasta tudo o que tinha na carteira.
                Quando chegam, a rua estranha e escura, está cheia, uma roda de pessoas curiosas se forma bem a frente do prédio de Linda.
                Antes que elas possam chegar perto, são interrompidas pela mãe de Linda, que chora em desespero.
                – Me perdoem, eu dormi, eu não vi! – ela repete compulsivamente.
                Rafael a ignora e se aprofunda na multidão, lá ele vê a irmã, estirada no chão. Há sangue e ele não consegue reagir.

Continua

Segunda parte postada, espero que gostem.
Agora a história estrará em uma segunda parte, e muita coisa vai acontecer.

Comentem se gostaram.

8. O Segredo de Rafael (Parte 1)



Durante as férias

                A porta se abre e Rafael dá um pulo de susto. Seu coração está acelerado e meus olhos arregalados.
                É só sua mãe.
                Ele se acalma, mas não fica feliz, pois seu olhar de reprovação não permite.
                – Poderia ser seu pai. – ela diz num tom amargurado e fecha a porta, atrás de si, bem rapidamente.
                – Eu sei. – Rafael olha para o chão, sem coragem para encarar a mãe.
                – Tire isso logo ou, pelo menos, vista algo por cima, tampouco sou obrigada a ver isso. – a mãe ordena e Rafael tira o sutiã, e se olha no espelho, seu tronco agora está nu, e para ele, incompleto.
                Sua mãe percebe seu incomodo, mas ignora, ainda é difícil para ela entender ao filho, ou filha, ou sabe-se lá o que ele realmente é.
                Ela trás as roupas que acabara de lavar e as coloca, vagarosamente, no armário do filho.
                – Você vai ficar trancado aqui durante as férias? – ela o questiona. – Você não saiu com nenhum amigo desta vez. E não falta muito para que suas aulas voltem. – observa.
                – Talvez eu saia. – ele dá de ombros.
                – Talvez... – sua mãe não fica satisfeita. – Olha, eu sei que tem todo esse... Negócio...
                – Não é ‘negócio’, sou eu. – ele diz. – Você não entende.
                – Não entendo mesmo, você não é isso que você quer insistir que é. – a mãe briga.
                – Eu não sou esse que vocês insistem em dizer que eu sou! – Rafael contrapõe e a mãe olha para ele de maneira reprovativa.
                – Você é o melhor jogador do time de futebol da escola, você é o garoto que trouxe a primeira namoradinha aqui em casa aos 11 anos, você é um homem, tem um corpo bonito de homem, feito para enlouquecer todas as garotas...
                – Mãe, mãe, pare. – Rafael a interrompe. – Você está se escutando? – ele a pega pelo braço e a obriga a olhar em seus olhos. – Tudo isso é um absurdo.
                – Absurdo? – ela ri nervosamente. – Absurdo é isso que você está fazendo, Rafael, como você acha que nossa família vai reagir? – Rafael se cala. – Exatamente. – a mãe diz. – Pare com isso, Rafael, pare enquanto você ainda pode. – ela pede e se desvencilha das mãos do garoto.
                Sem animo para continuar colocando as roupas no armário, ela sai do quarto, deixando a cesta de roupa no chão.
                Rafael se olha no espelho que fica na porta do seu armário. Sua face demonstra sua tristeza e desanimo.
                Seu corpo não é seu corpo, para muitos ele pode parecer ter o corpo ideal, alto, magro e com músculos bem formados, mas Rafael não consegue se sentir feliz por isso, pois este não é o corpo em que ele se sente confortável. O corpo ideal teria as curvas e delicadezas de um corpo feminino. Seus lábios seriam mais comportados e menores, seus peitos e bunda seriam maiores, seu cabelo seria longo, sua sobrancelha estaria feita e ele não teria aquele pomo de adão bem no meio de sua garganta. Mas, antes de tudo, ele não teria o que tem entre as pernas, e no fim, para ficar tudo completo, ele não seria ele. Ele seria ela.
                Sua mãe o surpreende ao adentrar novamente ao quarto. Ela não sorri e mal o olha.
                – Seu pai e eu passaremos o fim de semana na casa de sua tia, já que você não vai sair, pode olhar sua irmã? – a mãe pergunta, tentando não soar rígida.
                – Claro. – Rafael sorri. Ele ama a irmã caçula, e cuidar dela seria um prazer.
                A irmã mais nova de Rafael, Anna, tem apenas dois anos de idade, sua inocência é o que mais encanta a Rafael, com ela, ele se sente à vontade para conversar, porque ela não o julga, talvez pela falta de entendimento ou pela falta da maldade e preconceitos, e ultimamente, a menina é a única que Rafael pode contar nesse quesito.
                – Tudo bem. – a mãe suspira. – Iremos hoje durante o fim da tarde. – ela anuncia. – qualquer coisa, há uma chave de emergência debaixo do tapete da sala, dinheiro reserva, dentro do fundo falso, da segunda gaveta da escrivaninha de seu pai e deixaremos nossos telefones sempre ligados, caso você precise se comunicar conosco. – ela diz e isso magoa Rafael, pois ainda faltam horas até que os pais saiam de casa, se a mãe está ditando todas as precauções agora, era porque não tinha o interesse de falar com ele novamente. – Devo me preocupar com possíveis festas na casa? – ela pergunta.
                – Não. – Rafael responde, e a mãe assente e torna a deixa-lo só.
                O dia passa vagarosamente. Rafael mal sai do quarto, ele assiste alguns episódios de sua série favorita e depois começa a conversar pelo chat de uma rede social, com uma nova amiga, Linda, que é transexual, assim como ele, porém ela já está avançada na sua transição.
                Linda se tornou sua melhor amiga nos últimos tempos, desde que Rafael resolveu aceitar sua condição.                 Aproveitando que seus pais não estariam em casa, Rafael decide convida-la para ir a sua casa e ela aceitou.

                Os pais de Rafael se despedem demoradamente da pequena Anna, seu pai também demora na despedida com Rafael, mas a mãe não o acompanha.
                Assim que saem, Rafael começa a brincar com a irmã, na sala de estar, e ela se divide em rabiscar os cadernos de desenhos e brincar com uma boneca Barbie.
                A casa de Rafael fica em um bairro familiar de classe alta, porém, a sua residência é a menor de todas, três pequenos quartos, dois banheiros, uma cozinha e uma sala, o quintal é grande e tem uma piscina, e este é o maior luxo da casa inteira. Ele, ao contrario da maioria de seus colegas de classe, não nasceu rico, seu avô ganhou uma indenização quase milionária de uma empresa que ele trabalhou na sua juventude, e com o dinheiro, o avô e o pai construíram uma empresa de construções. No começo, ambos não se saíram muito bem, mas depois de um tempo, com os investimentos certos, a empresa cresceu em disparada. Hoje o avô já é falecido, mas a empresa segue em crescimento.
                Mesmo já tendo uma renda que ultrapassa os milhões, o pai de Rafael gosta de manter tudo simples, não quis gastar demais em uma mansão, nem fica trocando de carro uma vez por ano, sua mãe faz a maior parte das tarefas domesticas, só tem a ajuda de uma domestica uma vez no mês. A única coisa que seu pai não se incomoda em gastar é na educação dos filhos. Anna, mesmo muito pequena, já está na escolinha e também já está aprendendo a tocar piano, e Rafael está em uma das melhores escolas particulares da cidade.
                Linda chega após uma hora da saída dos pais de Rafael.
                Assim que entra na casa dele, ela fica encantada com a pequena Anna. Delicada, ela faz uma trança com o cabelo loiro e ralo da pequena, enquanto conversa com Rafael.
               
                – Quero lhe produzir. – diz Linda, olhando fixamente a Rafael, que não entende logo de cara o que a amiga quer dizer. A voz de Linda ainda é grossa, ela ainda se esforça muito para controlar seu tom, mas os remédios hormonais já começam a fazer um grande efeito e ela sabe que logo o tom feminino sairá bem mais naturalmente.
                – Não tenho nada aqui.
                – Vamos a minha casa. – ela sugere.  – É um pouco longe, mas se pegarmos o metrô nem vai perceber a distancia.
                – Mas e minha irmã?
                – Podemos leva-la. – Linda dá de ombros. – Vivo com minha mãe, ela é velha, mas pode nos ajudar a cuidar dela.
                Rafael hesita, mas Linda insiste muito e o convence.
                Os três saem e o sol já se foi do céu. No começo Anna está animada com a caminhada noturna, mas em menos de cinco minutos a menina pede colo e logo depois já está dormindo nos braços de Rafael.
                O garoto não pode evitar perceber os olhares dirigidos à Linda, alguns parecem confusos, outros não se enganam, eles sabem que Linda é trans e a matam com os olhos.
                Linda tinha razão, após entrarem no metrô, a distancia entre as duas casas, parece pequena.
                A rua da amiga de Rafael é totalmente diferente da rua dele, as casas são menores, as luzes mais fracas, as ruas menos cheirosas.
                Eles entram num prédio, que não tem portaria, e sobem dois andares de escada, já que não há elevador.
                O apartamento de Linda é pequeno, mas aconchegante. A sala é acoplada com a cozinha, e um pequeno corredor abriga dois quartos e um banheiro pequeno.
                A mãe de Linda é simpática, sorri a Rafael e a menininha que está em seu colo.
                Os três vãos até o quarto de Linda. O quarto é cheio de perucas e há uma grande penteadeira cheia de maquiagens, o armário de Linda nem mesmo fecha com tantos vestidos e sapatos. Rafael se encanta com tudo o que vê, e sente inveja de Linda, pois ela tem aceitação da mãe e já pode viver sem se esconder.
                Rafael vai até ao pequeno banheiro e tenta retirar sua barba o mais rente possível. Assim que termina, encontra Anna dormindo na cama de Linda.
                A transformação não é rápida, quilos de maquiagens são gastos e Rafael experimenta várias perucas, na questão de roupas ele não tem muita opção, Linda é menor que ele e já tem  algumas curvas, e a maioria das roupas que ela tem não cabem ou não ficam bem no corpo do garoto.
                Um vestido solto é tudo o que Rafael pode usar. Para finalizar, pela primeira vez em sua vida, Rafael coloca um salto alto que não seja de sua mãe. Fica um pouco apertado em seu pé, pois Linda tem o pé um número menor que o dele, mas Rafael não se importa, ele está tão feliz por se ver daquela maneira pela primeira vez, que não sente dor, nem mesmo cansaço pelas horas que acabara de passar se transformando.
                – Eu estou lindo. – Ele sorri bobo, olhando-se no espelho da de Linda. A amiga, que também sorri ao seu lado, se aproxima de sua orelha e diz bem baixinho.
                – Não. – ela o corrige. – Você está linda.

Continua



Olá, peço perdão por novamente não postar na data correta.
Sei que isso é ruim, mas serei obrigada a não mais marcar uma data fixa para as postagens, pois não estou conseguindo controlar meus horários.
Tentarei postar pelo menos uma vez por semana, e espero conseguir tal feito.

No mais, obrigada e espero que tenham gostado do capítulo. 
Amanhã postarei a parte 2

terça-feira, 16 de maio de 2017

Outono Cinza





Olá gente, quem se lembra de um capítulo que eu postei há alguns dias, sobre um desafio no qual estou participando? Então, aqui está a continuação, desta vez o tema era outono. Para quem não leu a primeira parte, é só clicar aqui .
Espero que gostem.

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                O verão mais estranho da minha vida já tinha terminado, mas isso não significa que o outono seria mais fácil.
                Casar com um desconhecido parece não ser algo tão incomum, quanto eu achei que era. Descobrir a forma em que me casei, ainda é uma história bizarra para mim, concluir que a separação seria um processo complicado, pois nos casamos em comunhão universal de bens, portanto, tudo o que eu já tinha e tudo que eu adquiri desde o casamento, deveriam ser divididos, foi assustador, mas contar a novidade para minha família, foi o fim.
                Agora estávamos todos juntos na sala de reunião da empresa. Eu, Roberto, meus pais, meu avô paterno, dois advogados e minha tia materna.
                Todos olham para nós sem reação, talvez estejam esperando que eu comece a rir, revelando que tudo não se tratava de uma brincadeira, uma encenação para descontrair o ambiente sério de trabalho. O último vestígio da animação do verão, antes que o outono nos deixe sérios demais.
                – Podemos processar o juiz desse cartório, se os dois estavam bêbados, ele deveria ter impedido a cerimonia. – um dos advogados sugere.
                – Ou ele pode aceitar o divorcio, sem pegar nenhuma parte do dinheiro. – meu pai diz. – Afinal de contas, você não casou com ela para roubar o dinheiro de nossa família, foi?
                – Pai! – eu o repreendo.
                – Não estou acusando. – ele se defende. – Estou apenas perguntando.
                Assim como pude conhecer melhor de Roberto, ele pode conhecer um pouco mais de mim. E a nossa clara diferença física não é nada comparada com a diferença em nossa renda.
                Meu tataravô é o fundador da maior empresa de construção de nosso estado, como parte da família, eu herdei o cargo de subdiretora da empresa, que hoje é comandada, quase que exclusivamente, por meu pai. A empresa é grande e a fortuna juntada por todos esses anos é alta, portanto, sou rica desde que nasci.
                Já Roberto tem uma história completamente diferente, sua vida não foi fácil. Criado só pela mãe, ele morava em uma invasão, quando tinha dois anos, a prefeitura desocupou o terreno onde ele morava e junto a sua mãe, foi morar na rua. Ficou nessa condição por quase um ano, quando ela conseguiu um trabalho, em tempo integral, como empregada, e a patroa permitiu que ela levasse o filho. Por toda a vida a mãe de Roberto foi domestica e ela nunca deixou que ele desistisse dos estudos. Ele foi o primeiro da família a entrar para faculdade, onde se formou em direito, hoje ele trabalha para o estado, como oficial de justiça, e com o salário, sustenta a mãe.
                – Não somos ruins. – sussurro para Roberto, que está sentado a meu lado.
                – Eu sei. – ele diz não muito alegre.
                – Nosso casamento foi estranho. – tento defender-me.
                – Eu sei. – desta vez ele força um sorriso.
                – Podemos lhe oferecer uma quantia, será bem menor do que a que levaria no caso da separação, mas será boa. – o outro advogado sugere.
                – De jeito nenhum. – meu pai interfere. – Agora toda vez que Marcela ficar bêbada e se casar, eu serei obrigado a pagar para que ela se separe?
                – Isso não vai se repetir. – defendo-me. – Não é como se isso acontecesse toda hora.
                – Eu não sei mais de nada, Marcela, mais de nada. – ele mal olha para mim. – Então me diga rapaz, você aceita sair, sem pedir nenhum dinheiro?
                – Não estou interessado no dinheiro. – Roberto responde, sem pestanejar.
                – Então o que estamos fazendo aqui? – meu pai pergunta.
                – Eu não sei. – Roberto responde. – Marcela e eu viemos apenas para dizer o que aconteceu, você que resolveu organizar essa reunião, ao invés de apenas conversar com a gente. – ele não teme em falar de igual para igual com meu pai. Até mesmo eu tenho medo de falar tão de frente com ele.
                – Então agora eu sou o errado da história? – ele pergunta.
                – Pai, não é assim.
                – Cale a boca, Marcela. – meu pai se altera.
                – Não fale assim com ela. – Roberto me defende.
                – Porque você está defendendo-a? Vocês nem mesmo se conheciam antes de fazerem essa burrada! Ou isso não se passa de uma brincadeira? Mais uma das piadas sem graça dessa menina mimada?
                – Não é uma brincadeira, pai. – já não tenho animo para brigar.
                – Temos que solucionar isso rápido. – ele exige.
                – E se eles continuarem casados. – sugere minha tia.
                Minha tia é uma mulher brincalhona, meu pai a odeia, mas por possuir uma astucia inigualável, quando o assunto é administração de empresas, ele foi obrigado a aceita-la como membro ativo dentro do alto escalão da empresa da família.
                – Não vejo como isto é uma solução. – meu pai quase rosna.
                – Primeiro que impede que ela cometa o erro novamente. – ri, mas quando vê que ninguém a segue, volta a ficar séria. – segundo que nos daria mais tempo para procurar uma solução melhor...
                – E mais rico ele sairá no final. – meu pai a interrompe. – Não vou parar os ganhos da empresa, só para que ela se separe sem perder dinheiro...
                – Eu aceito. – digo e todos me olham.
                – Eu não permito. – meu pai finalmente olha para mim.
                – Já estou casada, não há nada que possas fazer. – bato o pé. – Você aceita? – pergunto a Roberto e ele começa a sorrir.
                – Claro, estou adorando minha vida de casado. – ele diz e olha diretamente a meu pai, que está vermelho de raiva.
                – Ótimo, já podemos terminar esta reunião. – eu me levanto da cadeira.
                – Onde você pensa que vai? – meu pai agora grita.
                – Embora. – respondo. Roberto se levanta e segura minha mão. Saímos juntos da grande sala.
                Enquanto esperamos pelo elevador, Roberto parece pensativo.
                – O que foi? Já se arrependeu? – pergunto.
                – Não. – ele sorri fraco. – Este lugar... Cheio de ternos e cabelos arrumados e regras, nada de...
                – Alegria. – continuo a frase, quando percebo que ele hesita.
                – Não há cor aqui. Apenas preto e branco. É como se um outono cinza. – diz. O elevador chega e entramos.
                – Minha vida é cinza. – digo, após ficarmos breves segundos em silêncio. – Sempre foi. – digo. – Eu só nunca percebi antes.
                – Se você quiser, posso tentar colocar um pouco de cor nela. – eu o olho, e ele sorri para mim. – Já que somos marido e mulher... – dá de ombros.
                – Se eu não te conhecesse, diria que está gamado em mim. – ele gargalha e a porta do elevador se abre, e saímos na portaria.
                Ao sairmos do prédio, uma rajada de vento me faz arrepiar, Roberto me abraça, para inibir meu frio.
                As folhas das árvores começam a se espalharem pelo chão, as árvores quase nuas, parecem tiradas de um conto de terror, as roupas, que semanas atrás eram leves e coloridas, começam a ficar mais escuras e a terem mais panos. O outono chegou, mostrando que não veio para brincadeiras.
                – Vou te levar para conhecer minha mãe. – ele anuncia.
                – Sério? Contou sobre nós para ela? – pergunto.
                – Claro. – ele diz. – E ela quer te conhecer... Prometo que ela não irá chamar nenhum advogado e lhe acusar de nada. – eu coro, sem graça. – Ei, eu estou brincando. – ele ri, ao perceber que fiquei calada.
                – Eu sei. Já passei um bom tempo com você. – digo. – Você é um entusiasta de carteirinha.
                – Não vejo o porquê passar a vida de cara fechada. – ele se justifica.
                – Podemos marcar algo. – digo. – Com a sua mãe.
                – Você vai gostar da sua sogra. – ele brinca.
                – Se ela for como você...
                – Se eu não te conhecesse, diria que você está gamada por mim. – ele relembra minha fala de agora pouco e isso me faz rir.
                – Já que somos marido e mulher, vamos entrar na brincadeira.

Continua



7. O Segredo de Lucas (Parte 2)


                Lucas freia. Assim que o carro, que estava em alta velocidade, para por completo, já se passaram quilômetros do local do acidente. Os irmãos estão sentados, assustados, dentro do carro.
                – Vamos voltar. – Jade diz.
                – Não. – Lucas diz.
                – Se for só um animal, tudo bem, mas se for alguém, temos que voltar, nós podemos ajudar. – Jade insiste.
                – Jade...
                – Lucas. – ela o interrompe. – Precisamos voltar.
                Lucas religa o carro e coloca ré, ele vai com cuidado, até voltar para o local.
                Chegando, os dois saem do carro.
                O local está catastrófico, há marcas de pneu de carro na pista e no canteiro dá para ver um carro todo amassado, batido em uma árvore, que com o impacto quase tombou, dá para ver a raiz saindo, içando o carro, colocando-o em uma posição estranha.
                – Eu não fiz isso tudo. – Lucas não quer crer.
                – Não, não foi mesmo. – Jade garante. – Foi rápido, mas era uma pessoa ou um animal, não um carro.
                – Me ajude. – eles escutam uma voz fraca. Eles olham para frente, e alguns passos à frente, encontram uma pessoa, jogada ao chão, há muito sangue. Eles correm até lá. – Ajude minha mulher. – o homem, que agoniza no chão, implora.
                – Eu fiz isso? – Lucas pergunta.
                – Lucas, isso não é hora. – Jade o critica.
                – Não. – o homem responde, com a voz fraca. – Ajude minha mulher. – ele implora e para subitamente. Lucas o toca no pescoço do homem, tentando achar seu pulso, como não encontra pega diretamente no pulso do dele e novamente não encontra nenhum sinal.
                – Acho que ele está morto. – Lucas diz e Jade entra em choque.
                – Ele falou sobre a mulher dele. – a garota comenta, após se acalmar. Lucas se levanta, vira para trás e olha para o carro batido no canteiro. Jade acompanha seu olhar e corre até lá.
                Sai fumaça da parte da frente do carro.
                – Temos que tira-la de lá. – a garota diz já se jogando no carro, tentando pegar a mulher, que está inconsciente.
                Jade entra pelo banco do motorista, que está arrancada, a parte do motorista está quase intacta, a árvore pegou bem o meio do carro.
                – Jade cuidado. – Lucas não a ajuda. – Esse carro pode pegar fogo. – ele a alerta.
                – Mais uma razão para tira-la daqui.
                – Se resgarmos ela, ou chamarmos a polícia, eles vão querer saber o que aconteceu. – Lucas teme.
                – E daí? Não somos os culpados pelo acidente. – a garota tenta puxar a mulher pelo braço, mas ela está presa às ferragens.
                – Não temos como provar isso. – Lucas altera seu tom.
                – Lucas. – a menina sai do carro e olha para o irmão. – Qual é o seu problema? – pergunta.
                – Eu bebi. – ele assume.
                – Você está bêbado? – a irmão arregala os olhos.
                – Não. – ele não hesita em responder. – Eu ainda estou lúcido, não bebi demais, mas, se fizerem o teste do bafômetro, o numero que vai dar não vai ser pequeno o suficiente. – ele começa a se desesperar. – Nosso pai Jade, ele não pode saber disso. – ele fala. – Mas se chamarmos o resgate, isso vai sair para imprensa, você sabe disso.
                – Lucas, eu acho que ela está viva. – ela começa a tremer. – Não podemos deixa-la aqui.
                – Não podemos regatá-la. – Lucas insiste.
                – Eu não posso abandona-la. – Jade bate o pé e volta a adentrar no carro e tenta novamente puxa-la, desta vez ela usa mais força.
                A força extra que Jade usa, começa a fazer efeito, o corpo da mulher começa a mover. Para a surpresa da garota, a mulher abre os olhos.
                – Meu marido? – ela diz num sussurro sofrido.
                Jade não responde.
                – Fique calma, vamos te tirar daqui. – Jade diz.                – Lucas. –ela grita. – A mulher está viva. Ajude-me.
                Lucas, a contragosto, se aproxima da irmã e a ajuda a puxar a mulher, que começa a gritar de dor.
                – Puxe mais, Lucas. – Jade pede.
                – Meu bebê. – a mulher berra e isso faz com que Jade e Lucas parem. Jade olha para a barriga da mulher e ela está claramente grávida.
                – Lucas, ela está gravida. – Jade o alerta. Lucas se desespera e sai do carro.
                – Eu não consigo. – ele diz. Jade segue tentando ajudar a mulher.
                A fumaça que sai da parte da frente do carro se intensifica, e Lucas vai até a frente destruída e percebe que há um inicio de incêndio. Sem pestanejar ele volta a ajudar a irmã.
                – O carro vai explodir. – ele grita e Jade começa a puxar mais forte. Há muito sangue e a mulher, mesmo sem forças, começa a tentar ajuda-los, suas pernas finalmente saem da parte da frente do banco e eles se esforçam para tira-la completamente.
                O calor começa a ser sentido dentro do carro e o fogo aumenta.
                Há muito desespero.
                – Isso não vai dar certo. – Lucas grita e para de puxar a mulher e começa a puxar somente a irmã.
                – Para, Lucas, você está me atrapalhando. – ela reclama.
                – Não vamos conseguir. Vocês vão morrer. – ele berra.
                O fogo aumenta, assim como a fumaça, que começa a fazer todos tossirem.
                – Eu não posso deixa-la. – ela grita.
                – Eu não vou deixar você se matar por uma estranha. – ele a agarra pela cintura e a puxa para fora com muita força. Jade briga, e não se desgruda da mulher grávida.
                – Pare. – ela começa a chorar.
                – Não. – Lucas dá um soco forte na costela de sua irmã, que geme de dor. Isso a faz fraquejar e brevemente soltar a mulher e Lucas aproveita esse momento e volta se agarrar a irmã pela cintura e a tira do carro.
                – Não, Lucas, não! – ela berra, se esperneia e chora. Lucas não a solta e a puxa para longe do carro.
                O fogo se intensifica e a mulher dentro do carro berra, pede por socorro.
                – Lucas, não faça isso, não faça isso, por favor, não faça isso! – Jade está desesperada.
                Lucas a joga dentro de seu conversivo, fecha a porta, trancando-a.
                Ela chuta a porta do carro e tenta abri-la.
                Lucas entra no outro banco e tranca os dois dentro dele. Ele liga o carro e acelera cantando pneu.
                – Ela vai morrer, Lucas. – a irmã desaba em lágrimas.
                – Não podemos ajuda-la. Não mais. – ele diz.
                – Como você pôde fazer isso? – ela pergunta. – Precisamos chamar alguém.
                – Esqueça isso, Jade. – ele ordena. – Esqueça!

Continua




Capítulo postado. Espero que gostem.